Do grego: escrever a vida

Roberto Carlos em detalhes, biografia do cantor escrita por Paulo Cesar de Araújo, está fora de circulação há mais ou menos 2.270 dias. A contagem é feita pelo próprio autor, que se diz em clima de tranquilo otimismo em relação ao projeto de lei 393/2011, de autoria do deputado Newton Lima (PT/SP), que pretende impedir a censura prévia de biografias não autorizadas no Brasil. No último dia 2, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou a proposta que, agora, vai para o Senado. Tão logo a lei seja sancionada pela presidente Dilma, levará 45 dias para entrar em vigor.

Paulo Cesar de Araújo
Paulo Cesar de Araújo

Para Paulo Cesar, o que está em jogo é a extinção de um gênero literário, “porque não existe biografia sem vida pessoal”.

– Se você escrever um livro sobre um pintor falando só sobre seus quadros, vai fazer um livro de análise crítica, um ensaio. Para ser biografia, você tem que fazer um panorama da vida daquela pessoa, falar desde o dia em que ela nasceu até que problemas ela sofreu. Até porque muitas vezes os artistas demonstram na própria obra o que eles estão sentindo, alguns mais explicitamente que outros – explicou PC ao Paz, amor e lápis de cor.

Foi assim com Picasso, por exemplo, que tem seu conjunto de obras dividido em fases, entre elas: azul, quando estava melancólico por conta da morte do amigo Carlos Casagemas; e rosa, quando se apaixonou por Fernande Olivier, seu primeiro amor. O mesmo ocorreu com o próprio Rei, como quando fez a música Maria Rita meu amor, em homenagem à sua esposa.

PC lembra, ainda, que a aprovação da lei não vai significar a autorização de ninguém caluniar ninguém: “neste caso, é óbvio que o autor continua podendo ser processado”.

Apesar de otimista, o autor ainda não fechou contrato com nenhuma editora, mas confirma que já está havendo propostas e sondagens por parte delas – ele não renovou com a Planeta, que lançou o livro em novembro de 2006, antes dos exemplares serem recolhidos. Ele prefere esperar a confirmação da mudança na lei para começar a negociar.

– Acredito que, dessa forma, as editoras também vão estar mais confiantes de publicar o livro – pondera.

A edição que foi proibida tinha 504 páginas, mas, caso a lei seja aprovada, deve voltar ampliado às livrarias:

– Isso acontece porque, de 2006 para cá, Roberto está vivo e atuante. O sucesso “Esse cara sou eu”, por exemplo, vai ser incluído – conta, ressaltando que certamente vai comemorar o relançamento do livro com uma noite de autógrafos.

Ex-colega de turma do autor de Roberto Carlos em detalhes na faculdade de História da UFF, o deputado Alessandro Molon (PT/RJ) é o relator do projeto de lei, e o caminho dos dois acabou se cruzando novamente com esse caso. Em entrevista por telefone ao Paz, amor e lápis de cor, Molon disse que a expectativa é que o Senado deve acompanhar a votação da Câmara, aprovando a lei.

– A aprovação vai significar, de um lado, o fortalecimento da liberdade de expressão dos autores, que vão poder colocar em prática o que estudaram e pesquisaram e, de outro, vai representar para a sociedade o direito à informação, o direito de a sociedade saber da história que a cerca.

Procurada, a assessoria de Roberto Carlos disse que o cantor está em turnê e não daria entrevista.

Entre os próximos projetos de Paulo Cesar estão um livro de memórias que ainda não tem nome definido – mas deve sair no final do ano – que conta os bastidores do Roberto Carlos em detalhes e do Eu não sou cachorro, não (Editora Record, 2007); o lançamento de um livro sobre uma análise geral da moderna música popular brasileira, tema da aula eletiva que dá na PUC-Rio; e a publicação de sua tese de doutorado que, apesar de não ter um perfil exatamente definido, vai falar sobre o governo Médici, entre os anos de 1969 e 1974.

E vocês, o que acham? O Senado deve aprovar a lei?

Beijos,

Ligia

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

3 comentários em “Do grego: escrever a vida

  1. Acho que o senado tem que aprovar sim. A proibição vai contra a liberdade de expressão. Mas o mercado editorial deve tomar cuidado para que o mercado de biografias não se torne sensacionalista. Os autores de biografia devem ter o cuidado e o critério que escritores e pesquisadores como o PC e o rui Castro tem.

  2. Concordo com o Tiago! O único cuidado deve ser com difamações e blasfêmias, que já são impedidas por lei!!
    Adorei o post Ligi, o do MAR tbm.. fiquei com mta vontade de ir!

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