DICA DE LEITURA: Janet Malcolm

Estou chegando ao fim da faculdade e posso dizer que uma das aulas que mais me identifiquei foi a de Jornalismo Cultural. Já falei dela aqui antes, quando tive a ideia de fazer um post sobre a Gramophone Magazine. Graças a esta disciplina, tive a oportunidade de conhecer autores que não conhecia, ler livros que não havia lido e agregar um pouco mais cultura na pouca bagagem que carregava.

O último livro que li foi da coleção Jornalismo Literário, da editora Companhia das Letras: Anatomia de um julgamento: Ifigênia em Forrest Hills, da jornalista Janet Malcolm. O livro é dividido em duas partes: o texto em si e uma entrevista da autora concedida por e-mail à Katie Roiphe, professora do departamento de jornalismo da Universidade de Nova York.

Para começar, o título faz uma analogia com a tragédia grega Ifigênia em Áulis: Ifigênia (ou Ifigénia) era a filha mais velha de Clitemnestra e Agamemnon e seu nome significava “forte desde o nascimento”. Tudo começou quando o pai irritou a deusa Ártemis por se gabar de ser o melhor caçador. Como punição, os ventos em Áulis pararam e Agamemnon deveria sacrificar Ifigênia para que a deusa voltasse a soprar bons ventos para os exércitos gregos em direção à Tróia. Agamemnon então inventa uma desculpa para que sua mulher traga a filha. Quando descobre a verdade, Clitemnestra não perdoa o marido e o mata.

O livro narra a história de um julgamento na cidade de Nova York. No banco de réus estão Mazoltuv Borukhova – uma médica judia ortodoxa de 35 anos de idade acusada de mandar matar o marido, Daniel Malakov, após perder a guarda da filha (daí a relação com a mitologia grega) – e Mikhail Mallayev, o homem acusado de assassinar o marido de Borukhova (que mais tarde será chamada de Marina). A trama relata não só o que foi ouvido no tribunal, mas se desenrola também pelas entrevistas que a jornalista faz com outros envolvidos: os parentes da vítima, advogados, promotores, jurados.

São trinta capítulos curtos e muitos personagens. Quando dei por mim, estava anotando em um papel os nomes e quem era quem, para não me perder no meio do caminho. Apesar disso, a história se desenvolve bem, e a leitura não é pesada ou maçante.

O tempo todo, Janet Malcolm está descrevendo tudo o que se passa: como são as aparências, o ambiente, as personalidades, os humores. A minuciosidade de detalhes é uma constante.

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Mikhail Mallayev, de barba, e Mazoltuv Borukhova (Foto: James Messerschmidt / New York Times)

O que me chamou a atenção foi ver a autora se incluindo em várias cenas, usando a primeira pessoa e até emitindo algumas opiniões: “Se eu estivesse naquele painel, teria, com toda a honestidade, levantado a mão”, se afastando do observador imparcial, como ela mesma assume na entrevista publicada nas últimas páginas.

No entanto, faz seu trabalho de retratar o julgamento tal qual ele aconteceu, sem garantir culpa ou inocência até que o livro termine e você saiba a decisão do júri. Como afirma a jornalista: “um julgamento é uma disputa entre narrativas concorrentes”.

Vale a pena a leitura!

Beijos,

Ligia

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

Um comentário em “DICA DE LEITURA: Janet Malcolm

  1. “Quando dei por mim, estava anotando em um papel os nomes e quem era quem, para não me perder no meio do caminho.”

    Hahaha espere só até ler Game of Thrones!

    Muito legal, só fiquei na curiosidade agora de saber o resultado do julgamento :(

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