O QUE VOCÊ FAZ COM SEU CABELO?

“Este Natal vou fazer algo especial que ajude a quem precisa”. Foi com este pensamento que Mariana Montenegro, de 25 anos, doou seus cabelos cortados para o Instituto Nacional de Câncer, o Inca. Mariana, que sempre doa roupas para a igreja, “sendo Natal ou não”, aproveitou que queria mudar o visual e deixar o cabelo bem curtinho para doar suas mechas. Para isso, fez o corte em um salão comum e pediu para guardarem o rabo de cavalo. Depois, foi até a Varanda do Cabelo*, no Centro do Rio, que mantém parceria com o INCAvoluntário:

– A moça me explicou q eles guardam e esperam chegar mais para poder fazer a peruca para doação. Quando deixei o rabo, a moça me mostrou o certificado de parceria entre eles, para provar que meu cabelo vai mesmo ser usado para confeccionar uma peruca de doação. Não tive que assinar nada, ela só me mostrou o comprovante e deixou que eu tirasse uma foto (abaixo) – lembra.

Certificado de parceria entre a Varanda do Cabelo e o Inca.
Certificado de parceria entre a Varanda do Cabelo e o Inca.

Mariana escolheu o Inca porque sua prima teve câncer de mama e se tratou por lá, além de ser uma instituição muito conhecida.

– É uma sensação muito boa você poder ajudar o próximo. Hoje o mundo está tão estranho, parece que as pessoas estão ficando piores. O que aconteceu com o amor? A ignorância complica mais ainda. Não está fácil. Mesmo assim, ainda tem gente boa e disposta a ajudar por aí e quis de alguma forma fazer parte desse grupo e restaurar a fé na humanidade – explica.

O cabelo não precisa ser virgem para ser doado. Mariana, por exemplo, faz um relaxamento para alisar os fios que leva química no processo.

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Antes e depois do cabelo de Mariana

Para o INCAvoluntário também doou Diogo de La Vega, de 22 anos, que doou seus longos fios que mediam mais de 50 centímetros – cultivados por quatro anos – no final de 2012. Depois de tanto tempo cuidando bem de seu cabelo, foi ao salão para cortá-lo e decidiu que deveria aproveitá-lo de alguma maneira que não fosse jogando no lixo.

– Eu disse pra cabeleireira que gostaria de doá-lo para alguma instituição que fizesse peruca para pacientes com câncer. Ela me falou do Inca, disse que lá era o melhor lugar pra eu ir. No final, ela ficou tão comovida com a minha atitude que fez questão de não cobrar o corte. É uma prática solidária fundamental nos dias atuais que enriquece o espírito de quem a faz e motiva quem foi ajudado a fazer o mesmo também. Quando fui doar o cabelo (na Varanda do Cabelo), cheguei de surpresa, com o meu cabelo todo amarrado numa sacola dizendo que gostaria de doá-lo para que fizessem peruca. As moças que me atenderam ficaram tão gratas que não conseguiram nem falar muito. Eu fiquei emocionado com a recepção delas, voltei pra casa me sentindo iluminado, me senti ótimo por ajudar alguém que nunca saberei quem – conta.

diogo-longo  diogo-cortando

diogo-curto  diogo-cabelo

Mas a falta de uma campanha de doação mais forte talvez seja um dos motivos que a prática ainda não seja tão conhecida. Daniela Espíndola, de 23 anos, descobriu que existia essa possibilidade depois que assistiu em um programa de televisão a uma reportagem sobre pessoas que doaram seus cabelos para a confecção de perucas para pessoas em tratamento contra o câncer, e decidiu fazer o mesmo. Ainda não cortou porque não havia horário disponível no salão (o corte está agendado para o dia 22 deste mês).

– Eu já estava para cortar meu cabelo há tempos, porque está enorme, não corto há uns sete ou oito meses! Aí pensei: por que não doar? Pesquisei lugares que confeccionam perucas e conversei com minha gestora no trabalho, que já teve câncer, e ela me incentivou ainda mais. A sensação de ajudar o próximo é sempre ótima! Quando mulheres e crianças, principalmente meninas, perdem seus cabelos, a autoestima deve ficar lá embaixo! E poder trazer de volta a autoestima dessas pessoas com um cabelo que iria para o lixo é gratificante!

Celebrando datas importantes

Julia Leal completou 18 anos e, para comemorar a nova etapa, decidiu fazer algo diferente, especial e marcante.

– Li uma vez que toda mulher deveria raspar a cabeça ao menos uma vez na vida, e eu sempre tive essa vontade. Quando fiz 18 anos, decidi dar um presente não só para mim, mas também para alguém que precisasse. Então decidi raspar minha cabeça e doar meu cabelo para um instituto de câncer, fazendo uma homenagem às pessoas que sofrem com esta doença – explica Julia, que doou pelo correio seus fios ao Instituto do Câncer do Estado de São Paulo.

Julia, que tinha o cabelo na altura dos ombros, conta que fica muito feliz e realizada por poder ajudar mulheres que estejam passando por um momento difícil “tanto pela doença em si, quanto pelas consequências que o tratamento traz, física e emocionalmente”. Este foi o jeito que a jovem encontrou para mostrar para si mesmo e para todos algo que considera fundamental:

– A beleza, principalmente a do padrão imposto pela sociedade de hoje, não é tão importante quanto todos pensam. Existem coisas muito mais importantes do que isso, como o amor.

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O cabelo de Julia batia nos ombros
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Julia raspou a cabeça quando completou 18 anos

Quarenta anos completos fizeram com que Itala Maduell quisesse assumir seus “fartos cabelos brancos”, que existiam desde os vinte e eram escondidos com henna ou tonalizante. Ela queria parar de usar produtos químicos e assumir sua real aparência. Além disso, decidiu raspar os cabelos com máquina 3 para dar apoio a uma amiga que tinha recém-descoberto um câncer. Para isso, deixou de passar henna e de cortar três meses antes do corte, apesar de a presença de química nos cabelos não ser impedimento, no caso da Fundação Laço Rosa, para onde doou 25 centímetros de cabelo.

Laço Rosa é uma instituição sem fins lucrativos que tem o objetivo de distribuir gratuitamente perucas e lenços pela internet para pacientes com câncer em tratamento quimioterápicos. São aceitos todos os tipos de cabelo, de comprimento mínimo de 20 cm (um palmo, mais ou menos).

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Antes e depois do cabelo de Itala

– Fui no salão com minha filha, então com 7 anos, que fotografou toda a transformação. Foi no dia 19 de outubro. Em casa, ela escreveu no diário: ‘A minha mãe doou o cabelo pra quem teve câncer’. Já que eu iria cortar curtinho, aproveitei para ‘reciclar’, passar adiante o cabelo que não me serviria mais, e que poderia ser útil a alguém. Perucas são caras e, para muitas pessoas que passaram por mudanças radicais não só na aparência, mas em todo o corpo, ter uma peruca ameniza, ao menos um pouco, o tranco. E é pequena e pouco variada a oferta de cabelo natural. Pensar no outro, se pôr no lugar do outro, é um exercício de crescimento pessoal. São pequenas ações que muitas vezes dão sentido à nossa vida. Mesmo que não represente a cura sequer de uma dor, é um carinho. Uma pessoa que não conheço sentiu: ‘Alguém quis o meu bem’. Isso promove mudanças em mim e no outro – explica.

O diário de Sofia
O diário de Sofia

Itala enviou a doação pelo correio, em carta registrada com informações sobre o cabelo. Escolheu a Fundação Laço Rosa porque se imaginou doando depois de uma publicação do “Uma Pessoa Por Dia” (o projeto já apareceu aqui no blog!), onde a foto era uma menina que havia cortado o cabelo para doar. Esta menina é Carolina Erthal Tardin, de 23 anos, que sempre gostou de cabelos longos. Em 2012, passou metade do ano viajando e “tinha outras coisas melhores para se preocupar do que em cortar o cabelo”, além de que, nos lugares por onde passou, os preços dos salões de beleza eram muito altos.

– Ao voltar pro Brasil meu cabelo já estava bem maior e muitas pessoas admiradas com o tamanho dele ficavam falando que ele estava enorme, que já tinha passado a hora de cortar, para eu vender o cabelo porque ia valer uma nota… Sinceramente, aquilo me incomodava bastante! Eu não achava que estava na hora de cortar o cabelo, e nem passava pela minha cabeça vendê-lo. Foi quando uma das pessoas falou para eu vender meu cabelo mais uma vez que o tal estalo veio na minha cabeça e eu respondi: não, eu vou doar! E assim decidi e não mudei mais de ideia.
Carolina sempre gostou de cabelo longo
Carolina sempre gostou de cabelo longo

Carolina não sabia nada sobre o assunto, como era o procedimento, para onde poderia doar, mas começou um processo incessante de pesquisa até chegar à Fundação Laço Rosa. Decidiu por uma instituição de apoio ao câncer de mama porque, em sua opinião, é um tipo de câncer que mexe mais ainda com a sensibilidade e feminilidade da mulher, já que muitas vezes, além de perder o cabelo, pode perder a mama.

– Decidi doar 45 centímetros e estou deixando crescer para doar novamente. No dia da doação eu me senti tão bem que uma frase que sempre vem na minha cabeça é ‘fazer o bem sem olhar a quem’, e saber que outras pessoas estão fazendo o mesmo é maravilhoso.

A foto de Carolina no "Uma Pessoa Por Dia"
A foto de Carolina no “Uma Pessoa Por Dia”

A doação foi feita pessoalmente por Carolina no Studio Jakbel, em Copacabana. O estúdio é parceiro do Laço Rosa e confecciona e conserta perucas para a fundação.

[importante]

*Entrei em contato com a assessoria de imprensa do Inca para esclarecer algumas dúvidas: A Varanda do Cabelo é a única loja parceira do INCAvoluntário. Em 2013, a loja fez uma doação de perucas ao INCAvoluntário e revelou que produzia esses produtos. A partir daí, foi feita uma parceria com a loja, que realiza gratuitamente os serviços de produção de perucas, a partir de cabelos doados. É importante lembrar que o cabelo não pode ser doado diretamente ao Inca e sim à loja, que vai preparar a peruca e doar ao INCAvoluntário.

Espero que essas histórias incríveis tenham inspirado vocês!

Beijos,

Ligia

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

10 comentários em “O QUE VOCÊ FAZ COM SEU CABELO?

  1. Eu quero fazer a doação , só enviar para esse endereço ?” Rua Sete de Setembro, nº 205, no Centro do Rio.”

  2. Acabei de ligar para o Varanda do Cabelo e é possível enviar por correio. Segue o endereço completo:
    Varanda do Cabelo
    Rua Sete de Setembro 205
    Centro – Rio de Janeiro – RJ
    CEP 20050-006
    tel: (21) 2221-2097

  3. A partir de quantos centímetros de cabelo aceitam na Varanda do Cabelo? Alguém sabe dizer?
    Vi num site que a Fundação Laço Rosa aceita a partir de 20 cm, mas o hospital do câncer de Uberlândia aceita a partir de 10 cm…

  4. Gostaria muito de doar meus cabelos, mais quero que um profissional bom corte o meu cabelo, para que não se perca mechas e que o corte fique bom.

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