GETÚLIO: PODER NA INTIMIDADE

O longa Getúlio, protagonizado por Tony Ramos, que estreou no dia 1º de maio nos cinemas, representa os últimos 19 dias da vida do então presidente da República Getúlio Vargas (1882-1954). O filme parte do dia conhecido como o Atentado da Rua Tonelero, ocorrido em 5 de agosto de 54, quando o jornalista e maior rival político de Vargas, Carlos Lacerda (Alexandre Borges), sofre um atentado na porta de seu prédio em Copacabana, saindo levemente ferido, enquanto o major da Aeronáutica Rubens Vaz, que fazia sua segurança, é mortalmente alvejado pelo pistoleiro. Com isso, o presidente é acusado de mandar matar seu pior inimigo e pressionado para renunciar ao cargo de presidente da República. Gregório Fortunato (Thiago Justino), chefe da guarda pessoal de Vargas, é acusado como o mandante do crime.

Os 19 dias se passam com Getúlio mantendo-se firme em não sair do poder e provar sua inocência, até que decide suicidar-se atirando contra o próprio peito, em 24 de agosto de 1954, 60 anos atrás, deixando a célebre frase “E aos que pensam que me derrotaram, respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. (…) Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”.

Vargas presidiu o Brasil em dois períodos: de 1930 a 1945 (a partir de 37 como ditador, no governo chamado de Estado Novo), mas foi deposto pelos militares, voltando ao poder em 1951, onde permaneceu até a data de sua morte. Este é o tipo de filme que vale a pena ver mesmo sabendo o final, pois ajuda a entender e a saber mais dos bastidores da política daquela época, tanto para quem viveu, quanto para quem quer se aprofundar na História do país.

Em entrevista por telefone, o diretor do filme, João Jardim, contou ao Paz, amor e lápis de cor, que fazer Getúlio, sua primeira obra de ficção, foi muito instigante e prazeroso, por ser uma história com muita emoção. Jardim dirigiu os filmes Janela da Alma (2002), Pro dia nascer feliz (2006), Lixo Extraordinário (2010) e Amor (2011).

–  Foi muito bom trabalhar com pessoas tão fortes e importantes, como o Tony [Ramos], a Drica Moraes, o Alexandre Borges. O processo de escolha dos atores é um processo comum a todos os filmes: você contrata um produtor de elenco e vai pensando possibilidades, pesquisa dentro do que você imagina o filme. Tem muita pesquisa, discussão e intuição, é um processo de trabalho. No caso de Getúlio, procuramos pessoas que fossem parecidas com as da vida real.

O diretor João Jardim (no centro) nos bastidores do longa (Foto: Ana Stewart e Bruno Veiga / Divulgação)
O diretor João Jardim (no centro) nos bastidores do longa (Foto: Ana Stewart e Bruno Veiga / Divulgação)

Interpretando o papel principal no longa, Tony Ramos utilizou uma prótese dentária e uma roupa de espuma no formato do corpo de Vargas, que começa antes do joelho e vai até os ombros, para incorporar o personagem.

–  Nós chamamos uma americana para vir para o Brasil. Ela faz filmes americanos que têm muita tecnologia envolvida, e ficou dois meses construindo a roupa. Foi um processo longo de erro e acerto, aumenta e diminui, para construir esse corpo diferente por cima do corpo do Tony Ramos – lembra Jardim.

A concepção do thriller político partiu de mais de dois anos de pesquisa, leitura de diversos livros, artigos de jornais e revistas e de entrevistas com pessoas que viveram aqueles momentos históricos, além da leitura dos diários escritos por Getúlio entre 1930 e 1942. Até o roteiro – o roteirista é George Moura – adquirir sua forma final, foram cinco anos de trabalho.

Orçado em R$ 7 milhões, o longa foi filmado, principalmente, dentro do Palácio do Catete, que abriga o Museu da República. A cena do atentado na Rua Tonelero foi filmada exatamente onde ocorreu o crime, em 1954, e a cena do suicídio foi filmada na mesma cama – que tinha uma mancha de sangue no colchão – e com a arma que Getúlio se matou.

–  Isso foi uma das coisas que mais deu força para o filme, porque filmar no local onde tudo aconteceu, faz você se sentir vivendo aquilo que aquelas pessoas viveram. Foi muito rico pensar que aquilo aconteceu ali. Como é um filme baseado em fatos reais, é fundamental que o filme tenha sido feito lá – explica o diretor.

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Foto: Ana Stewart / Divulgação

Acostumada a trabalhar com bens tombados, a presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro e produtora do longa, Carla Camurati, usou a experiência para fazer a locação no Palácio do Catete, contando com uma equipe de museólogos que cuidavam da preservação do museu.

–  Foi bom ter este facilitador de a Carla saber lidar com o bem público e poder estruturar a produção de forma que pudesse se adequar bem ao Palácio.

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Foto: Ana Stewart / Divulgação

Getúlio trata da intimidade do poder, da possível fraqueza de alguém que assume ter sido um ditador, mas que prefere se matar a ser deposto. Esta intimidade ocorre, especialmente, quando Getúlio está sozinho, mas também quando aparece com Alzira Vargas (Drica Moraes), sua filha zelosa – e assessora e conselheira – ao seu lado. Um exemplo é quando Vargas parte um pedaço de bife, empurra o prato e Alzira pergunta: “não vai comer, papai”?

Os movimentos de câmera e a fotografia do filme ajudam a trazer o espectador para esse íntimo do personagem:

–  É um processo. Como diretor, tenho que confirmar o que vou usar para contar a história e eu realmente queria passar a intimidade do poder. Aliás, intimidade foi uma palavra que eu quis trazer para dentro do filme como uma maneira de trazer aquelas pessoas para mais próximo de nós. Procurei fazer com que as imagens contassem melhor a história e, no caso de Getúlio, da história na intimidade.

Bruno Veiga (17)
Foto: Bruno Veiga / Divulgação

Para Jardim, foi muito importante que Getúlio tenha sido lançado em ano de eleição.

–  É uma história que fala do Brasil, de um Brasil que já existiu e existe até hoje. [O filme] se mantém atual porque a prática política, de alguma maneira, é a mesma, não houve mudança de comportamento da política nos bastidores, a ética continua sendo a mesma do interesse próprio de cada um. A ideia do filme é refletir sobre o Brasil, o Brasil que a gente quer e o Brasil que a gente tem, e enriquecer essa reflexão.

E vocês, já assistiram ao filme? Conta nos comentários o que acharam! João Jardim vai adorar saber. :)

Beijos,

Ligia

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

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