O RÉU E O REI

Foi na Cinelândia, “coração do Rio de Janeiro”, lugar favorito e mais frequentado na cidade por Paulo Cesar de Araújo, onde me encontrei com o autor de O Réu e o Rei (Ed. Companhia das Letras). O novo livro do escritor – e jornalista e historiador – será lançado nesta segunda (11), às 19h, na Livraria da Travessa do Leblon. Marcamos o bate-papo no Amarelinho, bar onde ele costumava tomar um chope depois do trabalho, no tempo em que dava aula em um colégio ali perto, na Glória.

Relembre o caso

Em abril de 2013, também estive com Paulo – a reportagem vocês podem ler aqui – e, à época, a biografia não autorizada Roberto Carlos em detalhes estava fora de circulação por mais de 2.200 dias, mas o autor se dizia em tranquilo otimismo, na esperança da aprovação da lei 393/2011, que pretende impedir a censura prévia de biografias não autorizadas no Brasil.

O clima amigável é marca de Paulo Cesar, que enxerga a vida com uma boa dose de otimismo. Apesar da descontração, o escritor é firme ao dizer preferir estar do lado de lá: o de repórter ao de entrevistado.

– Sendo entrevistado me sinto completamente fragilizado, fico pensando o que vai vir por aí. Em parte pela timidez e em parte porque quando você está entrevistando é você quem conduz. Imagina no auge da polêmica a tensão que eu vivi nestas entrevistas, pensando que podia falar alguma coisa que pudesse desmoronar o processo contra mim.

Mas o processo está estagnado: até agora, Paulo Cesar não conseguiu reverter a proibição. No entanto, continua na expectativa da mudança da lei.

– Eu acho que depois deste livro [O Réu e o Rei], que eu revelei tudo, qualquer juiz ou desembargador que for julgar o caso vai ficar mais seguro para publicar Roberto Carlos em detalhes. Por isso eu acho que o livro volta – explica o escritor.

Além do tribunal, Roberto Carlos e Paulo Cesar estão em posições opostas em praticamente tudo, exceto em relação às músicas do cantor e na timidez que ambos carregam.

– Ele é supersticioso, eu sou zero de superstição. Ele é católico, eu sou agnóstico. Ele é Vasco, eu sou Flamengo. Ele não gosta de política, eu sempre gostei. Este episódio da biografia é apenas mais um exemplo de como estamos sempre na oposição. Minha identificação com Roberto foi basicamente musical.

Sobre o livro

A ideia de escrever um livro sobre sua história com Roberto Carlos, na verdade, partiu do público que, depois da proibição da venda da biografia do Rei, sempre perguntava a Paulo por que não contar esta história em um livro.

– Isso foi no final de 2007. De tanto me perguntarem isso, eu comecei então, no início de 2008, na estrada, nos hotéis, no avião, a fazer as primeiras anotações. O capítulo 9 [No fórum criminal] foi o primeiro que eu escrevi, que foi sobre o meu encontro com Roberto diante do juiz. Eu fui anotando tudo o que eu lembrava para não perder as frases, a roupa. Mas não estava definido se eu ia achar uma editora, se um editor ia querer, ou se isso de fato daria um livro – lembra.

Neste meio tempo, Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, entrou em contato com Paulo Cesar para saber quais eram os projetos do escritor. Quando sugeriu a Schwarcz fazer um livro sobre os bastidores do processo, o editor concordou que era um livro necessário, e o contrato foi assinado em janeiro de 2009, quando, oficialmente, O Réu e o Rei começou a ser produzido.

Apesar de nunca ter tido o hábito de escrever diário, o livro narra específica e detalhadamente episódios que aconteceram com Paulo Cesar desde quando ele era criança. Tornar-se escritor foi uma curva fora da reta, pois garante que tem “uma enorme dificuldade de escrever”.

– Se alguém dissesse para mim que um dia eu seria escritor, eu diria que esse cara estava delirando. Em colégio, eu era sempre o último a entregar a redação. Quando não tinha mais ninguém na sala, o professor já estava impaciente e pegando a pasta, eu dizia para esperar porque eu estava na metade ainda.

Mas, para compensar a falta de anotações, Paulo Cesar tem boa memória e se considera uma pessoa observadora e muito atenta.

– Acho que isso facilitou quando eu fui escrever essa parte da minha infância, porque eu não tinha nada anotado. Mas, claro, sempre checando. É um livro de memória, mas também de pesquisa. Se na minha lembrança estava chovendo, eu fui checar se estava chovendo mesmo.

O livro fala sobre a relação de Paulo Cesar com o cantor Roberto Carlos, desde a primeira vez que ouviu tocar uma música do Rei – que, na época, não era Rei ainda e nem tinha um milhão de amigos. Mas, além disso, o livro retoma aspectos da vida pessoal de Paulo, como a relação com o pai e namoradas.

– Um perigo isso de a gente ficar falando de namorada [risos]. Mas o livro é híbrido, ele é um livro de memória, mas não só de memória. Tem história do Roberto também. É um livro autobiográfico, mas não só isso. Certamente tem muita coisa ali inédita sobre Roberto, coisas que não pude contar no outro livro porque não deu, o foco foi outro.

Por ser uma autobiografia, Paulo considera baixas as chances de sofrer um novo processo pelo cantor.

– Como eu vou ser processado por lembrar algo que está relacionado com a minha vida? Eu acho que aí ficou difícil para uma tentativa do Roberto Carlos. Principalmente porque o que ele mais disse foi que ele estava me processando porque eu teria me apropriado da história dele. Ora, agora estou contando a minha história, da qual ele faz parte.

pcO Réu e o Rei era para ser lançado no fim de 2013, mas em abril daquele ano, foi criado o Procure Saber, grupo fundado por Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Roberto Carlos com o intuito de debater regras a respeito do mercado da música, inclusive a questão das biografias não autorizadas no país. Paulo achou prudente inserir o novo fato no livro, que acabou sendo lançado só em 2014.

– Então para lembrar: 2009, 2010, 2011, 2012 e 2013. Cinco anos. Estou falando isso porque assim que saiu o livro, logo depois da polêmica do Procure Saber, muita gente ficou achando que eu escrevi o livro em cinco meses. Quem dera eu tivesse essa capacidade. Alguns falaram que eu estava aproveitando, mas quando chegou o episódio do Procure Saber, eu já estava terminando o livro. Não pensamos em um momento ideal para lançar, ele foi publicado quando ficou pronto. A rigor, se eu tivesse terminado o livro com três anos de trabalho, ele teria sido publicado. Mas apareceu o Procure Saber e tinha que aparecer, é parte da mesma história.

Paulo Cesar afirma ter lido todos os artigos que saíram na mídia sobre O Réu e o Rei até agora e, para ele, “as pessoas inteligentes que escreveram sobre o livro, falaram que é um livro que revela e contribui para o debate” e critica quem o considera oportunista.

– Eu acho que todas as pessoas que falaram que eu sou oportunista são limitadas intelectualmente. Acho que muito dessa reação de achar oportunismo é porque ficou parecendo que eu escrevi o livro naquele momento. As pessoas que falaram isso, falaram de forma apressada.

A respeito da confusão com Chico Buarque (entenda aqui, aqui e aqui), Paulo Cesar garante que não sente rancor, e lembra que, quando o entrevistou, em 1992, Chico foi generoso ao conceder uma entrevista para um grupo de estudantes e que isso deve ser levado em consideração.

– Eu achei que ele foi generoso, flexível. Quando surgiu aquela polêmica, eu não me esqueci disso. Muita gente falou “Paulo, você tratou o Chico bem, se fosse outra pessoa ia tripudiar”. Eu entendo o Chico também, é razoável que ele tenha esquecido, mas eu não posso me esquecer que tudo isso aconteceu porque ele foi generoso com um estudante desconhecido, coisa que o Roberto e os assessores dele não foram – pondera.

Como é ser réu do Rei

É tradição Roberto Carlos distribuir rosas em seus shows. Mas o cantor se preocupa em retirar todos os espinhos para não ocorrer nenhum imprevisto, como o de algum fã se arranhar sem querer. A capa escolhida para O Réu e o Rei é azul com o desenho de espinhos, e foi aprovada pelo autor porque ele considera que “neste caso, todos os espinhos ficaram para o réu”. Entretanto, Paulo Cesar diz entender a posição de Roberto Carlos.

– Conhecendo a personalidade dele, alguém que não tem intimidade com livro, que não sabe o que é uma pesquisa histórica, alguém que tem Transtorno Obsessivo Compulsivo, isso explica, em parte, a reação dele contra o livro. Mas ser processado por Roberto é ser processado por uma instituição nacional, porque ele não é só um cantor e compositor, ele tem um peso. Ser processado por Roberto Carlos é ter impresso na testa a marca “você é um processado”, então eu carrego isso. O Paulo Cesar é aquele cara que foi processado por Roberto Carlos. Mas, por outro lado, isso também me deu uma notoriedade maior, chamou mais atenção para o meu trabalho. Então ser processado por Roberto Carlos é isso: você tem coisas negativas e positivas também.

Serviço:

Segunda-feira, 11/08, às 19h

Livraria da Travessa do Leblon

signature2

Anúncios

Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

3 comentários em “O RÉU E O REI

    1. Acho super interessante como o fato de o “rei” tentar impedir a publicação de um livro sobre a vida dele pode falar tanto sobre ele. Estou super curiosa pra ler O réu do rei, acho que a história de alguém que se propõe a fazer um trabalho interessante e é impedido por uma lei reacionária pode ser muito mais interessante do que a de alguém que se esconde atrás de rosas e sorrisos. Arrancar os espinhos de rosas que já morreram não é difícil, nem muito original.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s