TODOS PODEM SER FRIDA

 

Apesar de ser formada em Publicidade, a paulistana Camila Fontenele, de 23 anos, queria trabalhar com algo que aproximasse arte e liberdade de criação. Foi assim que chegou à fotografia e ao cinema. Em 2012, começou a pesquisar sobre a vida e a obra da pintora mexicana Frida Kahlo. Da vontade de produzir um portfólio fotográfico artístico, surgiu o projeto Todos Podem Ser Frida.

– Dentro da minha pesquisa sobre materiais de fotografia inspirado na Frida Kahlo, encontrei muita coisa relacionada à moda e à mulher. Mas fiquei pensando em fazer algo mais intenso e poético. Escolhi a imagem masculina naquele momento porque buscava retratar que os sentimentos de Frida também poderiam fazer parte do homem e que ela por si só já representava muitas outras pessoas. Escolhi homens porque Frida pra mim era tão única que poderia ser mais de um gênero. Os sentimentos da artista mexicana podem fazer florescer o coração mais duro. Não é algo exclusivo das mulheres ser sensível e nem do homem ser forte, é algo que se mescla – explicou a fotógrafa em entrevista concedida por e-mail ao Paz, amor e lápis de cor.

Os ensaios começaram no mesmo ano, em locações diversas nas cidades de São Paulo e Sorocaba. O projeto foi feito sem nenhum patrocínio ou apoio, e todos que participaram o fizeram de forma voluntária e colaborativa: “era uma troca de portfólio” entre a fotógrafa, o artista plástico e o fotografado. A ideia era fazer cinco ensaios, cada um com um tema marcante da vida de Frida: amor, dor, inteiro, cores e aborto, que seriam expostos apenas via internet (na época, o tumblr).

– Tudo foi muito natural, dei um tempo de um a três meses para cada ensaio. Vivi durante um ano carregando livros da Frida em minha mochila e os lendo em intervalos do meu cotidiano. Aos poucos cada ideia foi se encaixando e percebi que tinha que determinar o começo, meio e fim. Por isso, o projeto é composto por 5 ensaios que costumo chamar de fragmentos.

Apesar de a ideia inicial ter sido fotografar apenas homens, o projeto acabou se expandindo e, quando percebeu, os fotografados tinham saído de seu círculo de amizade e passaram a ser desconhecidos.

– No começo foi meio estranho, porque eu estava tão focada a transformar apenas homens, que era estranho ver mulheres de Frida. Mas depois comecei a tirar grande proveito disso. Para mim não era apenas uma fotografia, e sim uma experiência e um estudo de como as pessoas se comportam interpretando outra.

Fotografar a dor de Frida ajudou a fotógrafa a curar sua própria dor. Segundo Camila, conhecer a vida e a obra de Frida Kahlo foi essencial para a mudança de sua rotina e profissão.

– Digamos que o projeto seja uma parte do meu amadurecimento. Não há uma separação: quem olha as fotos passa a me conhecer um pouco mais, pois tudo foi feito de dentro para fora. É um jeito que arrumei para provar para mim mesma que eu era capaz de ser fotógrafa e não publicitária.

Hoje, Todos Podem Ser Frida está finalizado e idealizadora do projeto organiza exposições e performances em São Paulo e Sorocaba. A programação pode ser acompanhada pela página no Facebook. Atualmente Camila conta com uma equipe diferente para as intervenções, pois as performances têm outro tipo de dinâmica.

– Por mim eu passaria o ano viajando pelo Brasil levando as intervenções e a exposição, mas tudo depende de um espaço, de verba para cachê, hospedagem, alimentação e produção. Se tudo correr bem talvez role de ir para o Rio ano que vem.

Com uma grande vontade de contar como surgiu a ideia “nos mínimos detalhes”, Camila começou a escrever um livro sobre o projeto.

– [Minha grande vontade é] passar que na maioria das vezes ter dinheiro para realizar algo é lorota de preguiçoso. Com dinheiro as coisas vem mais fácil, sim, mas nada é maior que as grandes ideias e a mão na massa. Como disse Jean-Pierre [Jeunet, diretor do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain] em uma palestra, “ideias são mais difíceis de ter do que equipamentos”. O Todos Podem Ser Frida foi um momento frágil da minha vida de mudanças e amadurecimento. Além disso, as intervenções proporcionam uma experiência não só pessoal, mas social. A partir do momento em que meu trabalho se torna mais humano ele passa a valer mais a pena.

Quanto a novos projetos, Camila afirma não ter pressa e que os tem desenvolvido como forma de estudo.

– Acho que os próximos talvez nem sejam grandes ou do mesmo formato que o Todos Podem Ser Frida e não me preocupo, pois tem que primeiro fazer sentido a mim e depois ao outro. Não consigo trabalhar em cima de fórmulas e sim da minha criação. Apesar de libriana ansiosa tento me manter focada no campo profissional.

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

5 comentários em “TODOS PODEM SER FRIDA

  1. Essa arte, “feita de dentro pra fora”, eu adoro. Quando os artistas suam, põem alma no que fazem, aí sim fazem arte de verdade. Porque assim conseguem nos mobilizar, chacoalhar, sei lá. Eu não conhecia esse projeto, adorei. Cada imagem mais linda que a outra, a entrega dos modelos e da fotógrafa é muito nítida.

  2. Adorei a entrevista em si, a entrevistada falou coisas muito interessantes… quero conhecer melhor esse projeto… Amei as fotos postadas, adorei a ideia!!!!

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