RIO INVISÍVEL

Difícil passar um dia sem nos depararmos com pessoas que vivem à margem da sociedade, quase “invisíveis”. Quem são, por que estão nas ruas, que história trazem, eles têm família? Estas são algumas perguntas que vêm à mente quando as analisamos com um pouco mais de atenção. Com o objetivo de mudar a forma como a sociedade enxerga estas pessoas, o projeto RIO Invisível nasceu para dar voz a quem, inicialmente, não era nem visto. Lá são contadas as histórias do Amadeu da Paraíba, do Sérgio ajudante de pedreiro, do Haroldo com H, do Paulo que tem meia cinco, da Estéfany que uma vez se apaixonou.

Conversei com os coordenadores do projeto, Nelson Pinho e Yzadora Monteiro, ambos de 23 anos. Ele, formado em Publicidade. Ela, em Jornalismo. Estudaram na mesma universidade e se tornaram amigos logo no início da faculdade de Comunicação Social. Apesar de cada um trabalhar em uma área, sempre tiveram ideias parecidas, “seja na forma de pensar ou na forma de trabalhar”.

– Fizemos alguns projetos juntos, mas sempre com o foco em entender a nossa sociedade. Fomos à Aldeia Maracanã conhecer melhor os índios que lá habitavam e por aí vai. Sempre tivemos vontade de tocar um projeto juntos, e o RIO Invisível foi a solidificação disso – lembra Nelson.

 A página nasceu a partir do primeiro contato com os integrantes do SP Invisível, idealizadores do projeto, que deram algumas dicas e direcionamentos de estrutura.

– Assim que vimos a página deles no Facebook, nos identificamos e vimos a possibilidade de extensão aqui para o Rio. Eles foram super receptivos e nos deram liberdade para que pudéssemos criar um conteúdo com a nossa cara. A partir disso foi só sair pelas ruas com a câmera – explica o publicitário.

As páginas de “cidades invisíveis” criadas no Facebook (como Fortaleza e Campo Grande) fazem parte de uma só rede, mas a coordenação de cada uma é feita por integrantes locais.

– O pessoal de São Paulo, como idealizador, passa as orientações para as outras cidades. Tentamos dar às cidades que estão começando o mesmo apoio que recebemos.

A dupla procura abordar pessoas que estão sozinhas, “para que elas se sintam mais à vontade de contar suas histórias”, mas isso não é regra. Como nem sempre vão juntos às entrevistas, as conversas são gravadas e depois escritas a quatro mãos.

– Como estamos sempre com a câmera, estamos registrando pessoas pelo nosso cotidiano. Nós nos apresentamos, perguntamos o nome da pessoa e pedimos para nos sentar próximos à ela. Nisso já dá para notar se ela está a fim de conversar ou não. Tentamos quebrar a barreira dela para com a gente e ganhar sua confiança conversando, perguntando como foi o dia, sem colocar juízo de valor e intencionar a conversa para algo que ela não está a fim. Não temos um roteiro, a conversa flui da maneira como elas querem. Depois, pedimos para fazer uma foto. Se não aceitarem, agradecemos pelo papo e seguimos em frente.

As histórias sem foto não são publicadas na página porque, “sem a foto, as pessoas continuam invisíveis”, mas são guardadas para, quem sabe, serem reunidas em “um blog ou algo parecido”.

Para Nelson, a maioria das pessoas se sente mal quando vê um “invisível” pelas ruas, por não saber exatamente o que fazer e por conta de um receio de como será recebido. O RIO Invisível quer mostrar que todos têm uma história e desejos.

– Dando voz a eles [os “invisíveis”] fica mais fácil notarmos que não é preciso muito para que essas pessoas sejam reconhecidas. Tem gente que se sente mal em reviver certas coisas e logo de início já corta a gente. Outros dizem que não querem dar entrevista porque não veem necessidade para isso. Tentamos explicar, mostrar qual a ideia do projeto, mas se mesmo assim não quiserem, a gente agradece e não insiste – explica Nelson.

Yzadora conta que muitas pessoas questionam se as histórias contadas são verdadeiras.

– Se elas são verídicas, eu não sei. Também não acho que o nosso papel seja duvidar das histórias que os entrevistados nos contam. Aquele é o momento em que ele se torna sujeito de si, e não mais uma versão vista ou contada por terceiros. O que nos interessa é quem ele quer ser, a história que ele quer contar, como ele quer ser visto. É uma pena que as pessoas sempre busquem uma brecha para duvidar, questionar o “por que está na rua, então?”. Não temos essas respostas. O que me alivia é saber que este é o processo normal do conhecimento. Quanto mais se conhece, mais se dá conta de que ainda precisa saber mais.

A página no Facebook, lançada em mês passado, já alcançou mais de 31 mil curtidas, e em breve estará em outras redes sociais para alcançar ainda mais seguidores.

– Estamos muito assustados e muito emocionados! É muito gratificante ver pessoas se mobilizando e entendendo que nós mesmos podemos fazer alguma coisa. O crescimento foi orgânico, só divulgamos para uns amigos e percebemos que muitas pessoas querem ajudar, só precisam de um direcionamento. Estamos muito felizes.

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

2 comentários em “RIO INVISÍVEL

  1. Hoje soube da página pelo jornal. É algo que muito me preocupa porque não sei como agir, quando pessoas que vivem na rua pede dinheiro para min. Não sei o que é adequado diante situação, continuar só ajudando as instituições ou resolver problemas ali do momento.

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