LONGE É UM LUGAR PERTO DE MIM

Um tempo atrás entrevistei a Camila sobre o Todos podem ser Frida. Atualmente, ela está à frente de um novo trabalho e, desta vez, a protagonista é ela mesma. Longe é um lugar perto de mim é um projeto autobiográfico da jovem de apenas 24 anos, que busca escrever sua história através dos relatos de seus familiares. A autobiografia, para ela, é “a metade do caminho ou o começo de tudo”.
A ideia surgiu em 2010 com o intuito de contar a história de seus pais e, com isso, descobrir mais sobre si mesma. Mas o projeto ficou engavetado até agora, quando resolveu estruturá-lo melhor e colocá-lo em prática.

– Engavetei na época porque meus pais estavam em crise no casamento, e também pelo fato de eu não ser madura o bastante para encarar toda essa carga. Então deixei guardado e agora percebo que não adianta mais fingir que não existe – explica.

Ela tem um bom relacionamento com os pais, e Longe é um lugar perto de mim deu à ela a oportunidade de compreendê-los melhor – e vice-versa. Felizmente, a ideia foi bem aceita por eles.
– Eu tive um pouco de receio no começo, mas depois tudo correu bem. Ou está correndo bem. Ainda não conversei com meu pai sobre a história dele, espero que ele se abra comigo – pondera, levando em consideração que tem algumas dificuldades de diálogo com ele.
Foto: Camila Fontenele / Longe é um lugar perto de mim
Foto: Camila Fontenele / Longe é um lugar perto de mim
Como parte do projeto, Camila tem viajado por lugares que possam contar a ela algo mais sobre sua história: o Ceará, terra natal de sua mãe, Rosa Maria, e o Rio de Janeiro, terra natal de seu pai, Ricardo.
– Mas sinto que uma viagem só não bastará, pois sempre fui muito afastada da família de ambos os lados. Então, além do lado da pesquisa, também tem a parte de conhecer tios, primos… Talvez a pesquisa cresça para mais lugares, depende do que eu descobrir.
Os poéticos textos que publica na página do projeto são “um apanhado do dia ou da semana” e, depois de concluído, Camila pretende fazer uma exposição sensorial do projeto.
– Muitas vezes escrevo ali tudo de uma vez na emoção para não perder nenhum detalhe, se penso demais não sai nada. As conversas normalmente eu gravo ou anoto alguma frase mais forte para depois fazer um texto sobre aquilo. Com a minha mãe a conversa foi bem intensa, alguns momentos de riso e muitos de choro, é inevitável não se colocar no lugar dela ou imaginar tudo o que se passou. Diante disso, mesclo com a minha vida e bagagem e dou interpretações pessoais. Além dos textos, também estou fazendo fotografias. Minha grande vontade é que todo esse apanhado de coisas seja exposto numa casa rústica ou em um ambiente que lembre casa, e que em cada cômodo esteja um degrau dessa descoberta, explorando os sentidos humanos e libertando o ar quentinho que existe em nossos corações.
Para Camila, resumir uma história que ainda está sendo descoberta – a sua – é um grande desafio:
– Tanto minha mãe quanto meu pai tiveram uma vida difícil, principalmente a minha mãe, que fugiu de casa inúmeras vezes pelo fato de a minha avó bater nos filhos. Ela começou trabalhando como empregada doméstica em Sobral até chegar em São Paulo. E o meu pai sempre foi segurança de empresas terceirizadas. Eles se conheceram no Rio de Janeiro e se casaram depois de seis meses de namoro. Eu nasci em São Paulo, capital, no dia 18 de outubro de 1990. Vivemos uma parte das nossas vidas na Vila Prudente, depois no Rio de Janeiro e mais pra frente em Sorocaba, cidade onde moro atualmente. Isso tudo depois que nasci mas, até isso acontecer, meus pais moraram no Rio de Janeiro, numa barraca de acampar em um terreno que eles compraram. Sempre me vi adaptando de um lugar para outro, ficando chateada às vezes. Sonhei em ser inúmeras coisas nesse passar dos anos, mas fui me descobrir agora. Na verdade, acho que viver é isso: ter vários sonhos de diferentes direções.
A autora conta que vira e mexe se pergunta o que seria de sua vida se não tivesse mudado tanto. Ela, que passou a infância toda se despedindo, chegou a sentir raiva de seus pais, por isso. O sotaque misturado é a prova de que passou a vida tentando se adaptar nos diversos lugares por onde já passou.
– A todo momento eram pessoas novas, sotaques diferentes, costumes e regras diferentes. Hoje, apesar de morar há mais de 15 anos em Sorocaba, sinto que não me adaptei. Fazendo esse resgate percebo que a gente ignora muita coisa. Seja pelo fato de ter sofrido muito ou por querer esquecer. Fazer isso é um ato de coragem, porém deveria ser essencial para todo mundo, antes de começar me perguntei qual foi a última vez que sentei na frente dos meus pais para conversar sobre coisas antigas, descobri que nem havia chegado a primeira. Quero responder muitas dúvidas que não me deixam dormir, que doem quando vou viajar a trabalho… Essas coisas. Espero inspirar pessoas também, o resgate da essência e da própria história é mais do que importante, faz a gente caminhar mais leve – apesar, de doer!
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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

3 comentários em “LONGE É UM LUGAR PERTO DE MIM

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