BARBARA HELIODORA

Há três anos eu publicava no jornal do Portal PUC-Rio Digital, onde estagiava na época, uma reportagem que fiz sobre o documentário Barbara em cena. O filme, dirigido por Ellen Ferreira, mostra Barbara Heliodora além do adjetivo “mãos de ferro”, que a acompanhava por suas severas críticas teatrais. Tive a honra de entrevistá-la e perceber que, sim, ela era mais do que isso. Apesar de reservada, foi muito solícita comigo.

Hoje, Barbara nos deixou. Presto aqui minha homenagem reproduzindo na íntegra o texto de Documentário mostra Barbara Heliodora nos bastidores, de 16/04/2012, que tive o prazer de redigir:

Conhecida pelas severas críticas teatrais que faz há 54 anos na imprensa carioca, Barbara Heliodora abriu as cortinas da sua vida para cinco estudantes de cinema da PUC-Rio ao aceitar o convite para ser documentada em um curta-metragem. Idealizado para a disciplina de Projeto I, lecionada pelo professor José Mariani, Barbara em cena já participou do 17º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, no Rio e em São Paulo, e em maio será exibido em uma mostra no Centro Cultural da Justiça Federal, no Centro. Nesta terça-feira, dia 17, o filme poderá ser visto na PUC, no auditório do RDC, junto dos outros realizados para a disciplina. A mostra começa às 9h, e tem entrada franca.

– Sempre me incomodou muito as pessoas, famosas ou não, serem julgadas, tachadas, como se não existisse outro adjetivo, bom ou ruim, para elas. No caso da Barbara, era o fato de ela ser considerada mão de ferro. Não a conhecia, apenas lia as suas críticas. Então quis mostrar a Barbara humana – explica a diretora Ellen Ferreira, que fez o filme com as colegas Larissa Ribas, Luiza Andrade, Luiza Rocha, todas de 23 anos, e Thamy Kurosawa, 21.

Se é conhecida nacionalmente pela seriedade, rigor e erudição de seus artigos, Barbara Heliodora não é uma figura pública. É discreta, pouco afeita a badalações. A ideia do documentário era mostrá-la de maneira inédita e, possivelmente, única, porque foi “um processo longo” até ela se permitir ser documentada, conta Ellen. O filme mostra a rotina de uma senhora de vida pacata, que mora com a filha, tem uma cadelinha, vai ao teatro, escreve, faz tudo com amor. Ellen não considera Barbara uma pessoa tímida, mas reservada:

– Barbara nunca ficou em primeiro plano, e achou que ficaria exposta demais. Ela ficava incomodada por ser o centro das atenções. Teve que haver uma conquista, porque não era alguém da família; era uma estudante estranha que queria documentá-la. Até que ela viu que tínhamos boas intenções, não se sentiu mais fora do ninho e começou a se abrir.

Thamy, que filmou e editou o curta, acredita que a figura imponente de Barbara também contribui para a imagem de dama de ferro.

– Barbara tem quase 89 anos, mas não é uma “velhinha”. Ela é muito alta, e isso também intimida – afirma Thamy. – Mas, no convívio, descobrimos que ela é um amor.

A crítica de teatro, professora, ensaísta e tradutora, homenageada com um prêmio Shell de Teatro este ano por sua contribuição à arte, Barbara, aos 88 anos, está em plena atividade, publicando resenhas semanalmente no Globo. É também considerada uma das maiores estudiosas da obra de William Shakespeare. 

Barbara conta que nunca tinha pensado em ser documentada, e diz ter ficado “horrorizada” com a ideia. Como as meninas insistiram e era para um trabalho acadêmico, acabou cedendo, mas o processo de convencimento demorou. Barbara precisou ganhar confiança e se convencer da seriedade da proposta.

– Para mim, é muito desconfortável ser assunto de um trabalho assim, mas vi que o projeto foi muito bem-feito. As meninas vieram aqui em casa, conversamos, e eu acabei aceitando.

Sobre a seleção para a mostra competitiva É Tudo Verdade, Ellen conta que enviaram o filme sem qualquer expectativa de serem classificadas: “Apesar dos bons depoimentos, não sabíamos o que o júri ia achar”. Não saíram vencedoras, mas valeu a participação.

– A vitória foi ter entrado no festival e ter visto as pessoas se emocionarem. Significa que passamos alguma coisa. Não foi um filme vazio nem ficou aquele silêncio constrangedor. Mesmo quem não tiver gostado sentiu alguma coisa, uma mensagem foi despertada – comemora Ellen.

Entre os depoimentos prestados no documentário, estão os da filha Patricia Scott Bueno, as atrizes Marília Pêra e Fernanda Montenegro e os diretores teatrais Charles Möeller e Claudio Botelho.

– É sempre um prazer muito grande falar da minha mãe. Achei o resultado final do documentário belíssimo, as meninas fizeram um ótimo trabalho – afirma Patricia Bueno.

O documentário foi desdobrado no blog “Barbara em cena”, que traz a biografia da crítica, notícias sobre o curta, ficha técnica do elenco e sinopse. O filme já está espalhado em outras redes sociais, como o Twitter e o Facebook. Após a primeira experiência positiva em um festival internacional, as estudantes pretendem exibir o documentário em outros concursos.  

Barbara, que ainda não viu o documentário, vai ganhar o DVD: “Prefiro assistir aqui em casa”. Sobre a ideia de estar do outro lado, e ser alvo de eventuais críticas, Barbara afirma, tranquila:

– Todo mundo tem direito à crítica. O crítico põe seu ponto de vista, ninguém precisa concordar com ele.

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

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