A LOUCA

Mais do que nunca o feminismo vem ganhando voz. As redes sociais ajudam a disseminar o pensamento que, na verdade, é bem simples de explicar: mulheres querem equidade – e não superioridade – em relação aos homens. Portanto, feminismo não é o oposto do machismo, mas contra ele.

Para exemplificar situações que fazem parte do cotidiano feminino, a estudante de jornalismo Manuela Tecchio gravou uma canção intitulada A louca, que critica o machismo com boas doses de ironia.

Em entrevista ao Paz, amor e lápis de cor, Manuela disse que canta desde os dez anos e compõe desde os 15.

– Comecei cantando em festival de CTG [festival de tradicionalismo gaúcho] e depois fui para festivais de MPB e rock, então ali no final da minha infância e começo da pré-adolescência eu já estava envolvida com a música. Como compositora eu sou muito exigente comigo mesma, eu não consigo mostrar muito ainda, sabe?

Ela conta que ainda está se descobrindo e que esta descoberta é muito legal na parte artística da sua vida.

– Eu sei que sou um ser bem incompleto e que eu quero estar me construindo durante a minha vida, sempre repensando as coisas. Acho que isso é muito importante: a gente não estagnar em um pensamento porque ele sempre se torna retrógrado e preconceituoso. Estar sempre revendo nossos conceitos é fundamental.

Foi revendo conceitos que Manuela pôde perceber como pequenos machismos sempre estiveram presentes no seu dia a dia. Foi criada em uma cidade pequena por uma família bem tradicional. É a irmã mais velha de três, sendo a única menina, e sempre foi muito cobrada dentro de casa para ter responsabilidades.

– A questão do feminismo é uma coisa mais recente, mas eu vejo que os machismos dentro de casa eram mais por meus pais não pararem para refletir sobre aquilo do que por ser de forma intencional. Na verdade, raramente é. Geralmente é uma coisa cultural, a gente aprende a criar nossos filhos assim. Então, na minha casa, fui eu que tive que trazer o feminismo. Mas minha mãe sempre foi muito forte e valente, e sempre me ajudou muito a lutar pela minha voz, e isso foi muito importante para eu conseguir conquistar espaço, por exemplo, na escola, que é um ambiente hostil para meninas. Mas aprender o feminismo como teoria veio mais tarde, na faculdade.

Manuela está cursando o 7º período de Jornalismo na UFSC, onde criou, com outras colegas, o Coletivo Jornalismo Sem Machismo. Foi a partir de conversas do grupo que veio a inspiração para compor A louca.

– Rolava também muito preconceito da minha parte em relação às palavras feminismo e feminista, por uma questão de que eu fui criada assim, de que as ideologias são muito fortes, mas aí eu fui desconstruindo isso. No fim do ano passado, quando foi criado o coletivo feminista, esses debates começaram a se intensificar, e aí a gente começou a ir para o bar para se reunir e conversar mais sobre isso. A gente começou a falar sobre as experiências que tínhamos vivido nas férias, porque todo mundo volta a conviver com a família e passamos a observar mais as coisas. Aí as meninas falaram várias frases que tinham ouvido e várias situações pelas quais tinham passado. Eu cheguei em casa depois do bar, estava sem sono, e comecei a escrever as frases.

Letra e música ficaram prontas quase ao mesmo tempo. Com uma boa dose de ironia – que acredita ser uma “coisa mágica e extremamente educativa” -, Manuela conseguiu passar seu recado, mas acredita que a ironia está mais na melodia do que na própria letra, porque são coisas que ainda não são desconstruídas culturalmente.

– O machismo, meu Deus, está presente em tudo, em todos os lugares, é impressionante. Até tem gente que brinca “ai, para as feministas, tudo é machismo”, mas é que quando você para para observar com um olhar crítico, você percebe que tem machismo em tudo mesmo. No meu curso, por exemplo, a gente tem que ouvir que não pode cobrir determinadas pautas porque é perigoso demais para mulher, sofre a pressão estética do telejornalismo, porque não tem espaço para outros padrões de beleza, ou quando a gente vai sugerir uma pauta, o professor fala que não vai dar certo, mas se depois um menino fala exatamente a mesma coisa, aquilo tem uma autoridade, eles têm muito mais voz que nós e aquilo é aceito.

Manuela encontrou na ironia uma forma de chamar atenção e combater o machismo, mas acredita que existem outras formas de se lidar com o problema, como “trocar uma ideia” e ser mais didática. No entanto, a estudante admite que ainda reproduz muito o machismo e que esta é uma luta de todo dia que começa em cada um.

– Quando eu vejo que estou tendo uma atitude machista, procuro repensar aquilo, ver de onde veio, como eu posso transformar aquele meu hábito. Eu acho que vai de cada um. Não significa que eu vá tolerar machismo, mas eu sou tolerante com as pessoas e acho que cada um tem que ir se descobrindo e vendo onde estão os pontos falhos, tem que partir da pessoa. Mas acho também que tem que colocar na roda: alguém chamou a coleguinha de puta, de vagabunda, porque ela fica com um monte de cara? Não fica quieta, fala, desconstrói isso. Alguém diz que ser gorda é feio? Fala também. É essa coisa da gente meio que sair do armário como feminista, porque tem muito o discurso de que se você é feminista, você é chata, e aí você se sente acuada. A gente tem que botar a cara no sol, como dizem!

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

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