REPERTÓRIO SHAKESPEARE

Depois de três anos, quando estrearam o espetáculo Hamlet no Rio de Janeiro, o diretor Ron Daniels e o ator Thiago Lacerda se encontram novamente para um novo desafio: o Repertório Shakespeare, que consiste na jornada de duas peças do brado inglês, William Shakespeare. A primeira é Macbeth, tragédia protagonizada por Thiago ao lado de Giulia Gam, e a segunda é a comédia Medida por Medida, protagonizada por Marco Antônio Pâmio e Luisa Thiré. Catorze atores fazem as duas peças e se revezam na intensidade dos personagens – os protagonistas de uma peça interpretam papéis secundários na outra.

Estive com Thiago na Cidade das Artes, onde estão acontecendo os ensaios, e ele contou, em entrevista exclusiva ao Paz, amor e lápis de cor, sobre o processo de idealização do Repertório, a importância de Ron Daniels para o teatro brasileiro, a experiência de atuar em duas peças em uma mesma temporada e outros assuntos como a importância da educação para a cultura brasileira.

– Trabalhar com o Ron está sendo ótimo, como foi da primeira vez, em Hamlet. Ele é uma figura muito importante para o teatro shakespeariano e para o teatro brasileiro. Ter o Ronaldo é um privilégio como ator, como produtor, como homem de teatro. A sensação é bem essa: somos todos privilegiados por esta jornada que a gente começou há quase três meses. É realmente maravilhoso.

O projeto, idealizado por Thiago e Ron, nasceu ainda durante o processo de Hamlet, em 2012, quando perceberam que “era importante levar o teatro de Shakespeare para o ouvido da plateia brasileira da forma mais objetiva e direta possível”.

– Ele me perguntou qual peça eu queria fazer e eu disse a ele que minha peça favorita sempre foi Macbeth. E eu perguntei o mesmo e ele disse que, ao longo desses 50 anos de teatro, ele queria muito montar o Medida por medida porque, de todas as 38 peças de Shakespeare, esta era uma das quatro que ele não tinha feito ainda. Então tivemos a ideia de fazermos as duas juntas, para que não fosse um privilégio só meu ou só dele (risos). Imediatamente a gente reconheceu que esta era uma ideia bem corajosa e ousada, mas a gente decidiu achar que isso era bom e levar adiante, e cá estamos.

Thiago será Macbeth, um herói de guerra que encontra três criaturas misteriosas que profetizam que ele será rei em um futuro próximo e, a partir daí, se transforma em um assassino inescrupuloso que mata Duncan, o atual rei, para ser coroado.

Em Medida por medida, o Duque (papel de Marco Antônio Pâmio) decide reintroduzir uma antiga lei que pune qualquer tipo de abuso sexual com a morte. Contudo, deixa que a lei seja implementada pelo seu vice, o conselheiro moralista Ângelo (papel de Thiago), a quem transfere o poder por um período.

A preparação para os personagens se deu a partir da leitura e investigação coletiva sobre o texto com os outros atores, no que ele chama de momento de convergência de todas as pessoas que fazem parte do projeto, até começarem efetivamente os ensaios.

– A confecção do espetáculo é feita no dia a dia. O diretor tem ideias a respeito do que ele pretende e essas ideias vão permanecendo, se transformando ou sendo deixadas de lado. Mas a minha preparação é toda em torno do texto, porque o texto te conduz a tudo: ao figurino, ao cabelo, ao corpo, à emoção.

Sobre interpretar dois papéis importantes em peças diferentes em uma mesma jornada, Thiago descarta qualquer possibilidade do “fácil”.

– Quando aquela cortina abre, se você tiver que atravessar de um lado para o outro já é difícil. Mas é muito divertido você poder oferecer essa possibilidade para o público. Isso é um elemento desafiador a mais: você ter um projeto como é o Macbeth e de repente acoplar à ideia um outro espetáculo que tem um gênero diferente. As peças são completamente distintas apesar de escritas pela mesma pessoa. Isto faz com que, em muitos momentos, elas se encontrem. As ideias, os discursos, as entidades shakepearianas estão presentes na obra inteira como um todo. E aí, quando você oferece isso para as pessoas, é como se a gente estivesse mostrando para elas as razões que mobilizam o autor a escrever. É um gás a mais na nossa motivação pensar como a plateia vai reagir a esta possibilidade de dois espetáculos, uma comédia e uma tragédia.

Relação entre Hamlet e Macbeth

Quando protagonizou Hamlet, Thiago tinha o hábito de cortar sem perfeição o cabelo antes de entrar no palco.

– Hamlet começava a peça num estágio de confusão tão grande que eu mesmo não sabia antes de começar os ensaios. Então tive a ideia cortar meu cabelo antes de começar o espetáculo. Era uma espécie de automutilação, um procedimento de concentração, eu gostava da ideia de chegar no camarim e ter lá a tesoura se eu quisesse. Era uma brincadeira minha com o personagem, que surgiu depois de eu perceber que era um menino completamente confuso, ferido pelo que estava acontecendo antes de o pano abrir. Quando Hamlet começava, o caos já foi deflagrado pela morte do rei e a plateia não sabe disso.

Thiago Lacerda em Hamlet
Thiago Lacerda em Hamlet

Thiago diz que Ron tem uma ideia sobre a obra de Shakespeare, com a qual concorda: para ele, Shakespeare só escreveu uma peça. Desta forma, todas as peças de Shakespeare têm um ponto de interseção.

– A Barbara Heliodora era uma pessoa muito importante, mas a importância dela diante do Ronaldo é bem pequena, esta é uma declaração oficial. A importância deste cara (Ron) para o teatro shakespeariano no Brasil é incomparável. Não existem comparações a respeito do teatro de Shakespeare quando se fala de Ron Daniels. A Barbara é uma estudiosa e nada mais. Ron é o cara sobre Shakespeare. É brasileiro, de Niterói, e as pessoas precisam saber disso. Para nós, atores brasileiros, isso realmente é um privilégio. É um grande ator também. Antes de ser diretor da Royal Shakespeare Company, ele foi ator de lá. Ele fez o Macbeth como ator e como diretor. Ele sabe a peça de cor e em inglês.

Thiago acredita que Shakespeare, ao escrever Hamlet e Macbeth, quis fazer um exercício sobre um mesmo tema. Enquanto Hamlet retrata a não ação, Macbeth retrata a ação.

– Em Hamlet, o garoto tem uma imaginação infinita mas não consegue agir. Macbeth tem a imaginação na mesma potência hamletiana, com a diferença de que o Macbeth é um homem de ação. O caos em Hamlet é instaurado antes da peça começar, quando o rei é assassinado. Em Macbeth, a ordem está estabelecida quando a peça começa. No início do espetáculo, Macbeth mata o rei. O rei é a metáfora do pai da civilização e quando você mata este cara, você desestrutura um pilar da civilização: é o caos.

Ele afirma que quando se rompe com o civilizatório, o que sobra do ser é um animal, no sentido selvagem da palavra.

– Quando você rompe com as estruturas de civilização de uma gente, sobra uma besta irracional bárbara. O Macbeth começa a peça sendo um general maravilhoso, um homem bom, um herói de guerra. E é instaurado no centro do cérebro desse cara a semente da ambição, que todos nós temos, só que ele tem uma experiência: é revelado a ele a condição de rei e é dada a ele a possibilidade de acreditar nesta ambição. E ele diz “eu quero, foda-se, eu vou até o final”.

Thiago conta que Ron passou os cinquenta anos de teatro considerando que Macbeth contava a história de um homem bom que se corrompia e que agora se permitiu a uma nova interpretação: a história é de um homem bom que se transforma em um animal, em um ser humano desprovido de limites.

– E isso é o que a gente vê aí hoje. A mulher compra voto e foda-se, o anterior comprava voto e foda-se! É o que se faz há décadas. Se era feito, estava errado e continua errado se continua sendo feito. Quando você rompe com o limite do civilizatório, da ética, sobra uma coisa que pode fugir do controle, que é o animal.

Shakespeare e atualidade

Apesar da obra de Shakespeare ter sido escrita há cerca de 450 anos, Thiago a considera muito atual.

– Medida por medida é uma comédia urbana de costumes e Macbeth é uma tragédia clássica.O buraco macbethiano é um buraco completamente inóspito de civilização. Essa dicotomia entre as peças, esta “antítese de luz” é o que a gente tem de instrumento provocador. É aí que a gente espera pegar a plateia pela intuição, pela curiosidade, pelo estômago, pelo coração. Esta experiência de gênero é muito curiosa e eu me interesso muito em como vai ser isso.

A ideia inicial era montar uma jornada dupla do espetáculo, começando com uma peça às 18h e emendando com a outra às 21h, mas em São Paulo isso não será possível. No Rio de Janeiro, o Repertório Shakespeare será no Teatro João Caetano e na Cidade das Artes.

– Isso porque no Rio, a gente tem o Rio e tem a Barra (risos). O trânsito do Rio de Janeiro é injustificável. É um mal urbano grave. A gente sabe que a cidade está sacrificada por essas obras até o ano que vem, mas mesmo assim a impressão que dá é que ao terminarem as obras, o trânsito vai continuar, porque eles não estão fazendo o que realmente deveriam. O Rio é uma cidade complicada porque está entre mar e montanha, mas é uma coisa urbana louca. E isso se reflete em públicos diferentes e, de fato, as pessoas da Barra tem muita dificuldade em migrarem para assistir a um espetáculo de teatro.

Ainda sobre problemas urbanos, Thiago destaca como os “teatros de verdade” estão sendo abandonados e dando lugar a teatros em shoppings.

– A Cidade das Artes vem fazendo, desde que começou a funcionar a todo vapor, um trabalho de formação de público maravilhosa. Começa a trazer gente de Jacarepaguá, Santa Cruz, Campo Grande, Guaratiba. O palco do Teatro João Caetano é um palco tradicionalíssimo, que enche a gente de orgulho, mas o Teatro está abandonado.

O ator acredita que os teatros estão sendo deixados de lado por conta da falta de investimento na educação do país.

– A educação no Brasil não é uma prioridade. As pessoas não estão preocupadas com isso. Só quem está preocupado com educação somos nós, artistas, pessoas de comunicação, que querem gritar para as pessoas histórias sobre as pessoas. E o próprio público quer, mas nem sabe que quer. E os doutores da caneta sabem que um povo educado é um povo perigoso, um povo difícil. Isso é de décadas na nossa história e estamos em um momento onde isso só se agrava. A verdade é que somos (os atores) um bastão de resistência. É por isso que os teatros estão sendo fechados. Os teatros são lugares que não importam muito para as pessoas que deveriam cuidar deles. Mas é uma luta muito inglória você lutar contra um mecanismo que exclui a educação e a cultura.

Para Thiago, não existe educação sem cultura e não existe cultura sem educação.

– A única revolução que este país precisa ou que vai levar o cara a ter pudores em puxar a arma para uma família é a oportunidade. E o que gera a oportunidade é a educação e não um prato de comida, Bolsa Família, Bolsa Vacina. Tudo isso é fundamental, mas o que é realmente transformador é a educação. Só a educação te leva a caminhos definitivos. Educação é o cerne de todas as questões urbanas e sociais modernas. A verdade é que a propaganda nazista é repetida até hoje, mas com uma outra carinha, as pessoas maquiam aquilo e a gente fica refém de uma novidade antiga e que, por falta de educação e de cultura, as pessoas desconhecem.

Thiago acredita, ainda, que um dos motivos pelos quais o teatro é negligenciado pelas autoridades é porque o teatro é um instrumento político e, portanto, “uma arma poderosa”, lembrando a época da ditadura, onde atores eram perseguidos e peças eram censuradas e “tudo o que era dito e pensado era sistematicamente vigiado”.

– O teatro faz as pessoas se inquietarem, se envergonharem, se emocionarem e se revoltarem. E é por isso que as salas estão fechando.

Releitura contemporânea

Foto: Adriano Fagundes
Foto: Adriano Fagundes

O diretor tem o costume de trazer a linguagem coloquial para as montagens de Shakespeare. Esta contemporaneidade na releitura tem o objetivo de atingir todo o público. Thiago explica que é um objetivo muito concreto no trabalho de Ron.

– Ele acredita, e eu também, que o teatro é para o João e para a Maria. A gente precisa contar a história de uma maneira que as pessoas entendam, sem volteios intelectuais, sem floreios, pirotecnias. É por isso que você precisa de uma tradução boa, no sentido de que o que interessa é que as pessoas entendam o que você está falando.

A tradução das peças do Repertório são de Ron Daniels e Marcos Daud, a mesma dupla que traduziu Hamlet.

– Daud tem uma abordagem mais intelectualizada sobre a obra, e o Ronaldo, que tem muita intimidade com o autor, porque dirigiu a casa dele durante vinte anos, rompe com essa erudição. Em Hamlet, por exemplo, ele falou que “é a história de um menino que está com uns problemas, está doente, tem febres intelectuais”. Então, a releitura contemporânea é um desrespeito absolutamente respeitoso, porque não é um desrespeito, é uma intimidade que leva a esta possibilidade de romper com este falso “oh!” que envolve Shakespeare. É uma liberdade íntima que o Ronaldo tem que faz com que a linguagem tenha que ser necessariamente objetiva e clara.

 

Serviço:

Belo Horizonte

Cine Theatro Brasil Vallourec: de 29/10 a 01/11. Mais informações aqui.

São Paulo

Teatro do Sesc Vila Mariana: de 05/11 a 31/01 (de 21/12 a 06/01 não haverá espetáculo por conta do recesso de fim de ano)

De quinta a sábado às 21h e domingo às 18h.

Macbeth: quinta e sábado às 21h

Medida por medida: sexta às 21h e domingo às 18h (excepcionalmente, no feriado de 20/11, a apresentação será às 18h)

Ingressos a R$ 60 (inteira)

Rio de Janeiro

Teatro João Caetano e Cidade das Artes, a partir da segunda quinzena de fevereiro.

 

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

Um comentário em “REPERTÓRIO SHAKESPEARE

  1. “Só quem está preocupado com educação somos nós, artistas, pessoas de comunicação…”
    Infelizmente, uma meia dúzia de artistas, a maioria só quer aparecer na mídia. Tem muita gente preocupada com a educação, não só os artistas e comunicadores.
    Fora isso, entrevista muito bacana. Vou assistir em SP.

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