CENAS DE UM CASAMENTO

Fui convidada pelo Heitor (Martinez) para assistir ao espetáculo em que ele está atuando, Cenas de um casamento, em cartaz até o dia 15 no Teatro Ipanema e que depois segue para o Teatro Glauce Rocha, no Centro, onde a temporada se estende até 29/11.

O texto original, escrito pelo dramaturgo e cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), foi escrito em 1973 e lançado inicialmente como uma minissérie para televisão. O projeto da peça começou a ser montado em 2012, quando Juliana Martins comprou os direitos autorais do texto e foi em busca de captação de recursos e de empresas para conseguir patrocínio e, enfim, montar o espetáculo.

O tema bastante atual – a relação de um casal em crise – o deixa eternamente contemporâneo e, também por isso, conquista grande identificação dos espectadores, conforme Juliana explica:

– [Interpretar um texto de Bergman] é muito bom, um grande privilégio. Porque, além de ser muito atual, o público faz algumas interjeições ao longo da peça, reagem um pouco ao texto. A tradução da Maria Adelaide Amaral é muito boa, coloquial, bem feita. E o Johan e a Marianne são dois personagens muito completos.

Dirigido por Bruce Gomlevsky, Cenas de um casamento se passa em Estocolmo, capital sueca, e conta a história de Johan (Heitor Martinez) e Marianne (Juliana Martins), um casal que está junto há cerca de 10 anos e se vê meio a uma crise conjugal. Amor, dúvidas, traição, separação, ódio e ressentimentos são alguns dos temas abordados ao longo dos 90 minutos de espetáculo.

– O processo para viver a Marianne foi, na verdade, a minha vida pessoal. Eu fui casada por 17 anos e gostava do filme do Bergman exatamente por conta disso. Eu vi o filme pela primeira vez em 2004 – nesta época eu estava casada havia 9 anos – e pensei que deveria ficar um pouquinho mais madura e viver mais um pouco do casamento e entender o que Bergman estava dizendo. O processo da Marianne então foi a minha vivência pessoal, as terapias que faço, tudo o que eu vivo e vivi na minha vida sobre um casamento. Quer dizer, não tem experiências pessoais que eu tenha colocado na Marianne, mas minhas vivências, meus sentimentos e minha vida de casada que, no fundo, no fundo, é muito parecida com a de todo mundo – explica Juliana.

Apesar de estar gravando a novela Os dez mandamentos, da Record, Heitor topou o desafio de viver o personagem e encarar a maratona de gravações e apresentações da peça.

– Quando eu li o texto, eu me apaixonei, achei incrível logo na primeira leitura. Apesar de a gente ter conseguido fazer uma boa mesa com o Bruce, a gente sempre estreia ainda tateando. Mas é um texto muito claro e que, quem já foi casado ou teve qualquer tipo de relacionamento, se identifica muito facilmente. As pessoas da plateia se identificam, a Ju já foi casada, eu já fui casado, então a tradução da Maria Adelaide tem uma embocadura muito boa, é um texto gostoso de falar, então, neste sentido, foi muito fácil, mas é muito texto, é uma maratona mesmo – lembra Heitor.

Narrada pelos próprios atores, a trama é dividida em seis cenas e um epílogo. Blocos fazem parte do cenário e vão sendo moldados conforme a peça se desenrola, como num grande jogo de tetris – ora são mesas, ora cadeiras, ora cama ou sofá.

– Eu nunca pensei nisso [se os relacionamentos podem ser divididos em cenas, como na peça], mas talvez sim. Primeiro vem o namoro. Quando namora-se por muito tempo, pede-se um casamento. Depois que se casam, pede-se filhos – compara Juliana.

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Ao longo das cenas, pode-se perceber alguns “eu te amo” e muitos “eu te odeio”, como num jogo sádico de amor e ódio daqueles que formam um par. Além destes dois sentimentos, a solidão também se apresenta, quando é citada que a “a solidão a dois é pior do que a solidão sozinho”.

– É uma coincidência muito grande eu ter vindo de uma peça do Woody Allen [Sonhos de um sedutor], que era um fã do Bergman e que teve uma fase bergmaniana e sempre falou de relações, então acho que eu estou nesse período [risos]. Relacionamento é algo que todos vivemos, não tem como fugir disso, apesar de o texto falar que somos solitários. Dependendo se você está feliz ou deprimido, estar sozinho pode ser algo positivo ou negativo. Mas, filosoficamente falando, eu acho que somos todos solitários, sim, no sentido de sermos sozinhos. Nós tentamos facilitar a vida nesse planeta construindo relações com o outro. E acho que ele [Bergman] fala dessas construções de relações, que são muito difíceis, mas possíveis. Acho que todos os sentimentos estão dentro de uma relação, inclusive o ódio mesmo. Acho que a complexidade da peça é atraente, porque são tantos sentimentos envolvidos e você não está ali para dizer o que é certo e o que é errado – explica o ator.

Para Juliana, a solidão é algo muito relativo:

– Na minha opinião, a solidão existe quando você não se sente preenchido, quando seu coração não está preenchido e acalantado, mas cada um sabe da sua solidão. Eu acho que nunca senti esse vazio tão grande. Eu me casei muito jovem, então, talvez quando eu me separei tenha começado a entender que somos realmente sozinhos na vida, mas isso não foi uma solidão, mas uma maturidade. Ficar sozinho não é solidão, eu gosto de ficar sozinha.

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 No final da peça, o Johan diz que “o amor é humano e imperfeito”. Para Heitor, o amor pode ser vivido de diversas maneiras, mas ressalta a mais pura delas:

– Difícil definir o amor. O que eu entendo por amor é o que eu sinto pelas minhas filhas. É aquilo de você se doar a tal ponto que você até entrega sua vida pela outra pessoa. Eu acho que amor tem muito a ver com respeito e se não houver respeito não há amor, e qualquer coisa que seja dependência, que faça você se sentir preso a outra pessoa, isso não faz parte do amor, amor tem a ver com liberdade e respeito.

Até 15 de novembro no Teatro Ipanema. De sexta a domingo, às 20h. Ingressos a R$ 40 (inteira).

Serviço da próxima temporada:

Local: Teatro Glauce Rocha
Temporada 19 à 29 de novembro
Dias: Quinta a domingo
Horários: Quinta, sexta e sábado às 19h e domingo às 18h.
Valor: R$20,00 (inteira)
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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

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