SÓ (VOL.1)

Marcamos um café no Parque Lage para falar deles. Da música deles. Do novo disco deles: Só (vol. 1). E do que mais está por vir. Embalando a entrevista estava o som de um violão em outra mesa, proporcionando um maravilhoso fundo musical ao nosso papo.  Num dado momento, Lucas comenta que nossos vizinhos estão tocando Tears in Heaven. Pedro presta atenção e confirma: “verdade, é Tears in Heaven“.

Pedro Sodré e Lucas van Hombeeck têm 24 anos e um talento de velhos conhecedores da música – o espírito ancião de Pedro aparece até quando, em vez de “e-mail”, ele diz “recebi uma carta”. Estudaram juntos no Colégio Santo Inácio mas, na época, eram apenas conhecidos. As coisas mudaram a partir de uma postagem no falecido Orkut, quando Lucas publicou uma foto tocando violão no terraço da sua casa. Pedro ficou interessado e quis entrar também.

– Ele comentou “me chama pra essas jams aí” – lembra Lucas, surpreendendo até o próprio autor do comentário, que não lembrava exatamente o que havia escrito.

A partir daí, começaram os encontros na casa de Lucas para tocar. O ano era 2010. Chamavam outras pessoas conhecidas para essas “brincadeiras de fazer som” e, em pouco tempo, surgiu a vontade de montar uma banda. Brancaleones foi fundada em 2012, junto de mais dois amigos, João Marcelo Ballalai e João Felipe Carrera, depois de dois anos de intenso trabalho fazendo as músicas: Lucas escrevia, Pedro arranjava.

O trabalho com a banda teve de ser interrompido porque um dos integrantes viajou para estudar. Com isso, algumas músicas que já tinham sido escritas em 2011 e estavam engavetadas (como Labrador, de Pedro, e Centro, de Lucas), foram aproveitadas para fazer parte do primeiro volume de , que foi lançado no ano passado.

No disco, Pedro canta e toca nas músicas de sua autoria (Par, Labrador, Azul e Defeitos) e Lucas faz o mesmo (Semana e Centro). A primeira faixa do disco, Julho (Uma introdução) foi escrita por Lucas e é a única do disco que é de dupla autoria. Lucas fez a poesia e Pedro improvisou um violão enquanto a ouvia pela primeira vez, na mesma tarde em que gravaram todo o CD. Nas outras faixas, eles intervêm no trabalho do outro apenas para fazer backing vocal ou tocar guitarra.

– Assim que a gente decidiu fazer o CD, as músicas simplesmente surgiram, veio a inspiração e a gente começou a compor, como se a gente tivesse mesmo que fazer esse disco – lembra Pedro.

O processo criativo é completamente diferente para um e outro. Ambos se inspiram em suas próprias vivências, mas a forma como as experiências se transformam em música varia. Eles se dividem como Lucas, a letra, e Pedro, a música. Eles se encontram na canção.

– Acho que qualquer aleitamento mental vem da experiência. A experiência é a base da palavra, isso que dá força. Para falar a verdade, é isso que eu vejo na realidade de qualquer artista – observa Lucas.

Quando Pedro compõe, é como se estivesse “botando para fora”:

– Expressão é isso. Mas eu não tinha tanta consciência que eu estava angustiado àquele ponto quando compus Defeitos, por exemplo. Eu escrevi “às vezes eu me pego pensando nas coisas que eu vou reclamando”… Eu não me pegava pensando no que eu vinha reclamando, entende? Só que na hora que eu cantei fez muito sentido. Eu penso tanto, eu reclamo tanto das coisas que eu não falo e não faço e vou querendo mudar isso, mas a clareza deste sentimento só veio na música. Eu componho quase todas as minhas músicas meio dormindo, meio acordado. Antes de dormir, pego o violão. Com Azul foi assim, do nada veio “eu vou de flor em flor, eu sou um tom de azul”. Levantei, peguei o celular e gravei. A impressão que eu tenho é que eu só tive uma sensibilidade para encontrar Azul, capturei a letra dos confins do universo, porque já veio pronta. Algumas das minhas músicas vieram, de fato, de mulheres. Labrador foi uma menina que tinha uma foto com um labrador. Par também. Azul e Defeitos fiz para mim – lembra Pedro.

O processo de criação de Lucas começa na estrutura da canção. A letra raramente sai completa de primeira.

– O fino das letras rola quando eu estou distraído, quando eu já toquei a música 15 vezes e estou pensando em outra coisa. Nasce do espontâneo e é aí que o tesão aparece. Comigo, a harmonia da música surge no violão, mas eu trabalho muito. Raramente vem uma coisa já pronta. Tiveram letras da banda que eu escrevi a música com uma letra, joguei fora e fiz outra.

A mínima produção – “tudo na voz e violão e no máximo uma guitarrinha” – deu origem ao nome do CD, sugerido por Lucas, enquanto Pedro mixava o disco. A capa foi feita por Flora de Carvalho com foto de Bruno Pereti. Só vol. 2 está prometido para sair ainda este ano, dando continuidade ao trabalho, mas sem se prender à primeira edição.

Poucas coisas na vida são tão boas quanto trabalhar com o que se gosta e encontrar com quem a gente se dá bem. Quando junta as duas coisas, a combinação é perfeita. E acaba num boteco em Botafogo, tomando uma cerveja e brindando à vida.

 

 

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

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