ESTAR TRISTE É OUTRA COISA

Sentir-se só meio a tanta gente. Sorrir quando sangra por dentro. Ficar na sua para não incomodar. Parar de desabafar com seus amigos e familiares porque acha que eles não aguentam mais – que é frescura, que te falta reação, que você está se fazendo de vítima, que está demorando muito pra sair dessa. “Vamos ser otimistas?”, dizem. “Está tudo ótimo, você tem um emprego, um relacionamento bom, tem casa, comida, roupa lavada. Se formou numa ótima faculdade, viajou para fora do país, conheceu outras culturas. O que mais você quer? Não acha que está reclamando de barriga cheia?”…

Pode-se valorizar todos estes aspectos ótimos, ter momentos felizes e conseguir se divertir. Mas não está exatamente tudo ótimo quando você se sente mal fisicamente e emocionalmente. Psicologicamente. Quando você enxerga o copo sempre vazio, quando não tem forças para sair de casa, mas sai – para ver se distrai. Ou quando você marca de sair e desmarca em cima da hora porque não se sente mais confiante para ir. Quando você tem medo de marcar alguma coisa com muita antecedência com receio de que algo dê errado no meio do caminho. Quando você perde o controle, ou o apetite. Quando você passa a dormir demais porque esta parece a única fuga possível. Quando você demora no banho porque pode chorar sem que te perguntem “por que?” para depois acharem bobagem.

Quando anda mais rápido para chegar logo em seu destino. Quando reza pedindo proteção porque você realmente se sente ameaçado pelo cara do ônibus que está olhando muito para trás, pelo grupo na outra calçada que atravessou assim que te viu, pela sua sombra, que parece que tem alguém te seguindo. Mesmo quando está tudo bem, quando você faz piadas, ri, conversa – porque não quer que os outros saibam que seu pensamento trabalha demais procurando coisas que podem dar errado. Quando você quer fechar os olhos e os ouvidos para tentar sumir dessa realidade louca que é sua vida.

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Quando você se sente culpada por sentir tanta dor e às vezes nem saber explicar que dores são essas. Dor na alma. E na consciência, por saber que existem pessoas passando fome, morando na rua, sem família, com doenças graves. E você chora por eles, mas não consegue deixar de se sentir assim. Você busca caminhos e parece que sempre dá algo errado, porque você vê sempre o lado ruim. Percebe que as pessoas que você julgava próximas o bastante se distanciam cada vez mais, até você se sentir excluído por completo. E aí você começa a se excluir por não se sentir bem vinda, ou acolhida, ou amada. E você guarda todas as suas dores para si e os efeitos aparecem em formas variadas: frio demais, calores que vão e vêm, dor na coluna, enxaqueca, enjoo, dor no estômago. Quando tudo o que você precisa ouvir é um “estou aqui” e sentir um abraço apertado.

Falar disso não é se vitimizar. E estar triste é outra coisa.

Ilustrações de gg.

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

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