A LIBERDADE DE BRUNO

A torcida gritava: “p#%@ que pariu, é o melhor goleiro do Brasil: Bruno”!

O Flamengo de 2009 era um absurdo. Ronaldo Angelim, Petkovic, Adriano Imperador, Léo Moura e, claro, o goleiro Bruno eram alguns dos grandes nomes que moviam o time nos gramados e levavam à loucura a torcida rubro-negra na arquibancada. Bruno era ídolo. Bruno era o capitão no jogo que garantiu o hexa naquele ano.

Para o publicitário e flamenguista Pedro Boller, o time de 2009 tinha jogadores que se destacavam pela liderança dentro e fora de campo. Bruno era um deles: “um goleiro diferenciado, com muito potencial e capacidade de liderança”, lembra.

Foto: Buda Mendes/UOL
Ronaldo Angelim vibra com seu gol que levou ao hexacampeonato. Foto: Buda Mendes/UOL

Até que, no dia 6 de março de 2010, ano seguinte ao título de hexacampeão brasileiro e às vésperas do Dia Internacional da Mulher – celebrado em 8 de março -, aquele ídolo deu a seguinte declaração: “Qual de vocês aí, que é casado, que nunca brigou com a mulher? Que nunca discutiu, que nunca até saiu na mão com uma mulher?” A polêmica fala de Bruno dizia respeito à briga de Adriano (Imperador), colega do time, e a então noiva, Joana Machado, na favela da Chatuba.

Quatro meses depois, em julho de 2010, Bruno foi preso por ser mandante do assassinato de Eliza Samudio. Ele foi acusado de manter em cárcere privado, matar, esquartejar e ocultar o cadáver da amante – que havia ido à polícia em 2009 para denunciar que o goleiro a agrediu para que ela tomasse remédios abortivos ao descobrir que ela esperava um filho dele.

Agora, seis anos e meio após o crime, foi concedida liberdade a Bruno. Fãs o aguardavam ansiosamente do lado de fora para tirar fotos e falar com ele. Nove clubes de várias cidades já apresentaram propostas de trabalho.

Em uma entrevista exclusiva à TV Globo, Bruno afirmou não se arrepender de nada do que fez: “Independente do tempo que eu fiquei, queria deixar bem claro que se eu ficasse lá, se tivesse prisão perpétua no Brasil, não ia trazer a vítima de volta”.

– O Bruno acabou se demonstrando uma pessoa muito influenciável e com a cabeça muito fraca. Vejo uma pessoa arrependida do que fez, mas que não está apta a retornar para a sociedade. Como torcedor, até me incomoda falar sobre isso, mas ele não chegou nem perto de pagar pelos crimes que cometeu. Mas essa é a nossa “Justiça”… E, sinceramente, tem que ser muito aficionado e cego para continuar idolatrando um assassino. Acredito que todos nessa vida merecem uma segunda chance, desde que tenham pago pelos seus erros. Por mim seria extremamente positivo ele voltar a jogar um dia, mas é um absurdo ele tirar uma vida e ficar apenas seis anos preso – opina Boller.

O empresário e também flamenguista Ney Castilho de Mattos concorda que o problema está na justiça brasileira.

– Ele é um assassino sem antecedentes criminais, cumpriu da pena, teve bom comportamento na prisão e merece uma nova chance. O erro é da justiça brasileira, porque da pena, para mim, é pouco. Agora, se ele está em liberdade, não tem problema nenhum, ele tem chance de se reintegrar à sociedade.

Fotógrafa e torcedora do time, Mayra Nolasco fala sobre a construção e perda de um ídolo.

– O problema do Bruno vem muito antes do caso da Eliza. Ele deu uma declaração a respeito de um jogo que falaram que foi roubado dizendo “e quem nunca roubou?”, ou na outra entrevista que perguntou “quem nunca saiu no tapa com a mulher?”… Ele tinha comportamentos de falha de caráter que você via antes da atrocidade que ele fez, do crime que ele cometeu. E ele era um ídolo porque realmente ele era um super goleiro, ele agarrava pra caramba, e isso nunca vão poder tirar dele. Mas é inadmissível um cara que fez o que ele fez sair da cadeia, não cumprir nem metade da pena, e ainda ter proposta de nove clubes, sendo dois da série A, pelo que diz o advogado dele, que eu não sei se está blefando. Da mesma forma, é abominável pessoas pedirem para tirar selfies, inclusive mulheres, na porta da delegacia quando ele apareceu. O cara era um ídolo, sem dúvida, mas a partir do momento que ele fez o que fez, ele passou a ser um monstro para a maior parte das pessoas, mas a gente pode ver que não para todas. Como torcedora do Flamengo, na época que ele jogava, eu torcia muito e era realmente fã. Pelo que ele fazia, pelo trabalho dele sendo um excelente profissional, um excelente goleiro. Porém, a partir do momento que ele dá entrevistas com comentários desnecessários, machistas e impensados, eu comecei a perder um ídolo. O cara não precisa nem cometer um crime, mas as atitudes falam. O ídolo nasce não só pelo dom que ele tem, mas também pelo caráter, as atitudes e a alegria que ele proporciona. Um ídolo nada mais é que um exemplo.

Trabalhando como advogado criminalista há 26 anos, James Walker é o atual presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (ABRACRIM-RJ) e explica o caso.

Em verdade, o ex-goleiro Bruno foi solto por decisão liminar do Ministro Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal, em razão do excesso de tempo para o julgamento do seu recurso de apelação – o recurso de segunda instância. As prisões no Brasil, por força da Constituição Federal, somente se tornam definitivas após o trânsito em julgado do processo, ou seja, quando não cabe mais recurso. Enquanto isso não ocorre, a prisão tem natureza cautelar, ou seja, tem caráter provisório.

Desta forma, continua Walker, ninguém deve ficar preso provisoriamente por tempo excessivo ou indeterminado. O Ministro reconheceu este “excesso de prazo na apreciação da apelação” do Bruno e determinou que ele fosse solto.

– Por outro lado, a qualquer momento a apelação pode ser julgada e, confirmando-se a condenação de primeira instância, o ex-goleiro muito provavelmente terá novo mandado de prisão expedido pela justiça e retornará à condição de preso. Isso em cumprimento à orientação do próprio STF que, no ano passado, julgou o Habeas Corpus 126.292, possibilitando o cumprimento de pena após as decisões de segunda instância. Neste cenário, acredito que em questão de muito pouco tempo o ex-goleiro retornará à prisão, bastando, para tanto, o julgamento e confirmação, em segunda instância, da decisão condenatória do juízo de primeiro grau. Quem irá julgar o recurso é o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), então é lá que será ou não expedido novo mandado de prisão – conclui o criminalista.

Vamos ver.

Foto da capa: Carlos Roberto/O Tempo

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

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