SÉRIE MULHERES: REBECA SERVAES E LETICIA MOTA

O Mota Servaes Advogadas, fundado em agosto de 2017 pelas advogadas Leticia Mota e Rebeca Servaes, ambas de 26 anos, é um escritório de advocacia voltado especificamente para a causa das mulheres.

Pioneiro no Rio e um dos primeiros escritórios com esta abordagem do Brasil, o Mota Servaes é referência quando se fala em direitos das mulheres.

Queremos fornecer um lugar onde as mulheres se sintam acolhidas e que sejam compreendidas. Queremos que essas mulheres se sintam ouvidas e que com isso se sintam mais fortes e confiantes. Acreditamos que a nossa união nos faz mais fortes.

Rebeca formou-se em Direito pela PUC-Rio e Leticia pela UNI-RN, mas se conheceram na Pós-Graduação em Direito das Famílias e Sucessões, também na PUC do Rio de Janeiro. Na época, as duas estavam advogando de forma autônoma. Foi quando veio a ideia de criar um escritório em conjunto. O projeto surgiu da vontade de criar um espaço que acolhesse de forma especial as mulheres que estivessem passando por uma situação difícil, com um olhar e uma forma delicados de lidar com suas causas.

– A gente começou a ver o que precisava para abrir a empresa, traçou um planejamento, fez nosso site e desenvolveu nossa identidade visual, e começou a frequentar, ler e respirar tudo o que existia de direitos das mulheres. Fomos a todos os eventos que existem no Rio de Janeiro, lemos todos os livros, procuramos pessoas que têm a ver com isso. Começamos também a frequentar um grupo que se chama Minas e as Carreiras, que são várias meninas que se juntam para falar do universo profissional, dos desafios das mulheres no ambiente de trabalho. Enfim, a gente tentou mergulhar totalmente e uma dessas formas de tentar se inserir no universo dos direitos das mulheres foi começando a frequentar os eventos da OAB Mulher – lembra Rebeca, que entrou na faculdade de Direito com o objetivo de ajudar as pessoas.

Atualmente as advogadas são integrantes da OAB Mulher, uma comissão da OAB RJ, formada por mulheres advogadas, onde são tratadas questões de desigualdade de gênero. Rebeca, atualmente, está Coordenadora do Grupo de Trabalho (GT) de Violência de Gênero e todas as pautas sobre violência contra a mulher passam pela Presidente da OAB Mulher, Marisa Gaudio, e por ela.

Segundo Leticia, a comissão tem por objetivo debater essas desigualdades promovendo a valorização da mulher, além de militar pelos direitos das mulheres.

– Nas reuniões procuramos conversar e debater sobre essas questões e pensar em formas de informar sobre o assunto para todas as mulheres, não só as advogadas, principalmente em assuntos ligados aos seus direitos e também de realizar ações que possam auxiliar a vida das mulheres. Pensamos sempre em palestras de caráter informativo e que são abertas para que todos aprendam sobre os direitos das mulheres. Todas as pautas da comissão demonstram a importância do envolvimento de toda a sociedade nas questões de gênero.

De acordo com Rebeca, as mulheres têm um olhar de vida muito diferente dos homens, porque entendem coisas que os homens nunca vão entender, já que nunca vão sofrer o que as mulheres sofrem. Elas, por exemplo, contam que já sofreram assédios na rua, como “encostadas no metrô e cantadas nojentas”. Leticia relembra uma situação que foi marcante:

– Quando eu estava na faculdade, fui para um congresso em outra cidade e a noite saí para uma boate com umas amigas, estávamos lá bebendo e conversando e um cara me chamou para dançar e eu aceitei. Até aí tudo bem. Teve um momento em que ele pediu para ficar comigo e eu disse não, foi quando começou o problema. Ele começou a insistir e a me perseguir na festa. Ele usava o argumento de eu queria ficar com ele porque tinha aceitado dançar. Como se você aceitar uma dança quisesse dizer que quer ficar com a pessoa. Até que teve um momento que eu estava sozinha e ele me agarrou me prendendo e me deu um beijo, eu fiquei em estado de choque e não consegui sair sozinha, até que uma amiga viu e gritou com ele e ele me soltou. Eu voltei para o hotel me sentindo muito mal e culpada por ter aceitado dançar com ele, fiquei pensando se de alguma forma eu fui muito simpática e não deixei claro que realmente não queria. Mas depois de um tempo refletindo sobre isso e conversando com as minhas amigas, me dei conta de que o simples fato de ele não ter respeitado o meu não já é um erro, já é assédio e que eu não tinha culpa nenhuma do assédio que eu sofri.

Rebeca ressalta que as questões de gênero têm que ser muito debatidas pela nossa sociedade, porque só assim as pessoas vão realmente entender o que é a violência contra a mulher.

– As pessoas precisam internalizar tanto o que é a violência, qual a gravidade e quais são as consequências. Então, só debatendo sobre o assunto que a sociedade vai começar a entender. É importante a troca de conhecimento e informação para as mulheres verem que, às vezes, elas estão passando por uma violência, e que isso é uma rede, onde ninguém está sozinha. Dentro do Judiciário, ainda há muito machismo, e nós mulheres encontramos muitos desafios com as instituições, que ainda são muito machistas, para fazer o nosso trabalho. Primeiro para nos respeitarem por sermos mulheres e segundo por defender pautas de mulheres. A gente sofre na pele o que é a discriminação de gênero. O Judiciário e todos os seus braços são um reflexo da sociedade machista em que vivemos. Eu e Leticia dizemos que todos os dias para a gente é um 7 a 1 [em referência ao jogo Brasil x Alemanha na última Copa do Mundo, quando o Brasil perdeu para a Alemanha], porque todos os dias temos uma frustração, mas a gente não vai desistir, alguém tem que enfrentar esse machismo, para tratarmos, por exemplo, sobre a violência psicológica. As pessoas não levam a sério a violência psicológica, acham que só se a pessoa estiver sangrando é que sofreu violência, e não é assim. Os danos causados no psicológico podem destruir anos da vida de uma pessoa.

Atualmente, no escritório só trabalham as advogadas, mas desde o início da idealização do projeto, a intenção é trazer uma equipe multidisciplinar só de mulheres, com advogadas, psicólogas, assistentes sociais, administradoras e outras. O carro-chefe do Mota Servaes é o Direito de Família e Criminal (Lei Maria da Penha), mas também trabalham com ações trabalhistas, em casos de assédio no trabalho ou desigualdade salarial, por exemplo.

– O nosso foco é qualquer caso onde a mulher sofra algum tipo de discriminação de gênero ou que precise de alguma ajuda especial, um auxílio sensível à causa dela e que vá tratar o caso de forma mais delicada. A gente também atende transexuais, porque é um grupo que também sofre muitíssima discriminação de gênero por parte da sociedade – explica Rebeca.

 

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

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