SÉRIE MULHERES: BRUNA BARBOSA

Ela não se contenta com um currículo enxuto. Para apresentá-la, precisa-se de ao menos três linhas. Formada em Direito, com MBA em Administração focado no Mercado Internacional, tem formação em Fotografia, já foi mentora em projetos com impacto social, mas se considera uma exploradora do mundo, com múltiplos interesses. Essa é a Bruna Barbosa, paulistana de 35 anos, que decidiu viajar o mundo e conta um pouco de tudo que vivenciou no blog Expressinha. Ela voltou há um mês de uma longa viagem de 1 ano e 3 meses e já pensa em viajar de novo.

Sua família sempre gostou de viajar e, desde criança, Bruna tinha a vontade de fazer uma viagem devagar e dedicada.

– Tenho loucura por conhecer, aprender, entender as histórias e notícias que ouvimos a vida inteira ali, no local onde elas acontecem ou aconteceram. Me sinto montando um enorme quebra-cabeças do mundo! Eu e meu marido sempre conversamos muito sobre tirar um ano sabático e, em 2014, percebemos que esse sonho finalmente era viável, desde que viajássemos de forma econômica, o que para nós nunca foi um problema.

Ela já viajou muito (38 países!) e algumas vezes sozinha e outras com amigas. Para ela, as mulheres precisam se preocupar com questões que, na maior parte do tempo, nem passam pela cabeça de um homem.

– Infelizmente a maior parte do mundo vive em sociedades patriarcais em que as mulheres se sentem menos protegidas e em muitos lugares as mulheres vivem uma série de restrições que não são replicadas para os homens. Mas não acho que seja exatamente mais difícil viajar sozinha. Acho que nós temos que ser mais cuidadosas com a nossa segurança e temos que entender bem onde estamos para evitar desentendimentos. Já viajei bastante sozinha e em dupla com alguma amiga e sei que dá para viajar para qualquer lugar e fazer tudo o que qualquer outra pessoa faz. Para mim, os segredos são pesquisar bastante, porque hoje tem muita informação para facilitar a vida da mulher viajante; conversar com as locais, que normalmente vão te dar boas dicas sobre a melhor forma de você se locomover e se relacionar ali; seguir seus instintos; e sempre, sempre, enfrentar seus medos, porque são eles que na verdade te aprisionam.

Ela acredita que as mulheres conseguem atrair boas energias quando viajam sozinhas. Ela se viu em situações onde muita gente quis ajudá-la, protegê-la.

– Às vezes as pessoas confiam mais [por ser mulher], às vezes te convidam para conhecer uma casa, uma família, que talvez não fosse aberta para um homem ou mesmo para um casal. Tem também o lado bom. E viajar sozinho, sendo mulher ou homem, é sempre uma experiência incrível, super transformadora e que todo mundo devia fazer pelo menos uma vez.

Namibia

Para o ano sabático, o casal começou a planejar e guardar dinheiro. Na verdade, eles juntam dinheiro desde sempre: para emergências, comprar uma casa, etc. Mas eles desistiram de tudo isso e passaram a focar na viagem. A urgência se dava, ali, porque era um momento que não tinham dívidas, filhos, nem nada que os prendessem. Ao mesmo tempo, ressalta, tinham energia e conseguiriam lidar com as condições mais espartanas de uma viagem como essa.

Seu marido estava estabilizado no emprego, mas diante de tamanha determinação de Bruna, passou a acreditar que seria possível realizar o sonho dos dois. Na época, Bruna trabalhava em uma grande empresa de e-commerce e estava no momento mais promissor de sua carreira.

– Há alguns anos passei por uma fase muito ruim no trabalho e estava desmotivada e um pouco desacreditada do meu talento. Confesso que essa foi uma época em que eu e meu marido começamos a falar com mais vontade sobre essa viagem longa. Porém, eu nunca romantizei tanto assim o sabático, tinha dúvidas sobre encontrar um novo caminho caso “largasse tudo”. Eu já tinha dedicado muito de tempo e dinheiro na minha carreira e gostava do que fazia. Percebi que era uma fase e não queria viajar cheia de dúvidas, pois sabia que elas andariam comigo como a minha própria mochila: um peso nas costas. Sei que para muitas pessoas a infelicidade ou insatisfação com o trabalho é um gatilho motivador, mas eu preferi, ao contrário, me resolver comigo mesma e profissionalmente antes de tomar qualquer decisão definitiva. Com isso, passei por uma fase de muito aprendizado, ralei muito pelo meu progresso pessoal e profissional e saí daquela crise de identidade. Foi aí que tomamos a decisão de viajar, pois além de me sentir leve, depois de tantas mudanças e batalhas eu me sentia capaz de realizar qualquer coisa! Inclusive começar tudo de novo quando voltasse.

Quando a data da viagem chegou, Bruna tinha acabado de ser promovida e a empresa onde trabalhava estava envolvida em um projeto que seria incrível para sua carreira.

– Pensei sim em desistir. Pensei em adiar. Acho que pedir demissão foi sem dúvida a parte mais difícil para mim, pois sabia que minhas condições profissionais estavam excepcionalmente boas enquanto o Brasil estava num mar de crise, no meio de 2016. Mas eu tinha muita clareza de que nunca haveria um momento perfeito. Sempre haveria um projeto ou um problema ou uma oferta com a qual lidar e em qualquer momento seria uma decisão difícil. Mas naquele, como eu disse, nós tínhamos disponibilidade, energia e dinheiro e não queríamos abrir mão dessas condições também. Então a escolha foi pela viagem.

Os cálculos foram feitos na ponta do lápis de quanto pretendiam gastar e de quanto precisariam para viver por alguns meses sem emprego quando voltassem para o Brasil.

– Queríamos ter alguma segurança caso as coisas não fossem fáceis no retorno. Na verdade planejamos juntar dinheiro por um ano, mas no final desse prazo não tínhamos conseguido juntar o suficiente, mesmo levando uma vida bem simples. Não tínhamos carro, gastávamos pouco, mas apertamos mais ainda e fizemos um controle bem justo nos últimos seis meses antes de viajar e conseguimos alcançar o total que estimamos.

Egito

No itinerário, 22 países da Ásia e da África. Não cogitaram viajar pela América ou pela Europa pela maior facilidade de ir para estes lugares num período mais curto, como férias.

– Nós já tínhamos visitado a Ásia e morrido de amor pela enorme diferença cultural e já conhecíamos a longa jornada para viajar para qualquer país do outro lado do mundo, então optamos por focar nessa região. Nosso plano era começar na Ásia, visitar a Oceania e depois alguns países da África, em um ano. Mas não tínhamos um plano muito fixo. Compramos a passagem de ida para o Japão e fomos decidindo todo o resto no caminho, conforme as coisas aconteciam. Acabamos ficando um ano inteiro só na Ásia e abrimos mão de visitar a Oceania porque os custos por lá eram mais caros e estávamos apaixonados pelas loucuras asiáticas. Conseguimos ficar 3 meses extras, que passamos na África.

Japão, Vietnã, Laos, Camboja, Tailândia, Myanmar, Índia, Nepal, Butão, China, Tibet, Coreia do Sul, Filipinas, Indonésia, Irã, Turquia, Líbano, Egito, África do Sul, Namíbia, Botswana, Zimbabwe e Zambia foram os destinos escolhidos. As hospedagens eram as mais baratas possíveis para manter o orçamento diário. Eram hostels, pousadas familiares e hotéis simples.

– Também acampamos e fizemos couchsurfing na casa de desconhecidos, dormimos em templos e em algumas ocasiões nos demos o pequeno luxo de ficar num lugar mais legal. Nosso dia a dia era sempre de aproveitar ao máximo o lugar onde estávamos, procurar o que conhecer e planejar os próximos passos. Como precisávamos gastar o mínimo possível, fazíamos muita pesquisa para descobrir os melhores trajetos, os transportes e acomodações mais baratos. Pegávamos com outros viajantes todas as dicas possíveis e fizemos algumas coisas que nunca pensamos e que foram incríveis por incentivo de pessoas que conhecemos por aí, como a trilha para o Everest Base Camp!

Everest

Bruna tenta inspirar outras pessoas a seguirem os seus sonhos e realizar projetos pessoais e faz isso através do seu blog, criado em 2012, depois de ter passado três meses na Angola fazendo um curso.

– Nessa época as pessoas me bombardeavam de perguntas sobre o país, sobre como era viver lá, como era a África, como era estar sozinha em um país que mal tinha saído de uma guerra sem fim e que curso era esse… De repente, me vi pesquisando, indo a fundo na história angolana e também no dia a dia local. Fazia Skype com pessoas que eu nunca tinha visto e que queriam saber como era a Angola antes de se mudar para lá por conta de uma proposta de emprego. Resolvi contar e escrever sobre a minha experiência e ajudar a dissipar o medo do desconhecido, que é o que faz a maioria das pessoas desistirem de viajar. Para mim, é justamente o que move! Esse foi mais ou menos o meu primeiro sabático, porque tive que pedir demissão para seguir as aulas que era em período integral e com três meses em Angola e três meses em Portugal, só que nesse eu não estava sem fazer nada. O meu medo de encarar essa jornada foi o mesmo do ano sabático oficial, que fiz agora, mas como eu estava estudando, as pessoas julgaram menos porque se iludem pensando que num ano sem trabalhar ou estudar você não aprende nada. E isso não chega nem perto da verdade.

Angola

No início, era só um hobby, mas hoje em dia o trata “mais profissionalmente” e chega a ganhar dinheiro com o conteúdo. No geral, seus posts dão dicas práticas de viagens e roteiros, mas gosta também de falar sobre suas experiências com outras pessoas e culturas. De vez em quando traz histórias engraçadas que aconteceram com ela, como no Me Xamã Que Eu Vou De Novo, em que conta um encontro com um xamã em Cusco.

Durante o ano sabático, entre 2016 e 2018, ela não atualizou muito o blog, justamente por estar vivendo as experiências e saboreando cada momento.

– Eu queria entender melhor tudo que estava vivendo antes de contar pro mundo, e queria fazer algo bem feito, o que toma tempo. Fiz até um post no blog chamado Today Is My Perfect Day em que falo exatamente em viver intensamente todo momento, então eu levei a sério! Postei quase diariamente no Instagram (@expressinha) mostrando lugares diferentes, contando nossas aventuras e fiquei surpresa com a quantidade de gente que disse que estava acompanhando, aprendendo, tomando coragem! Nem era um canal com muitos seguidores, utilizei mais pela praticidade e tive um retorno super bonito das pessoas se sentindo inspiradas. Agora estou recheando o blog com dicas e histórias do sabático e falando dessas fases de planejamento para uma viagem longa como no post Deu Medo, Mas Tudo Bem e tenho outros projetos nascendo.

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

Um comentário em “SÉRIE MULHERES: BRUNA BARBOSA

  1. Obrigada por contar minha história, Ligia! Espero que mais mulheres se inspirem e saiam pelo mundo!

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