SÉRIE MULHERES: BARBARA MENCHISE

Barbara Menchise representa o feminismo. Aos 26 anos, a editora de vídeos e uma das fundadoras do movimento Não é não se mostra uma mulher bem resolvida e disposta a confrontar todos os seus fantasmas.

Filha de pais separados, Barbara foi criada praticamente só pela mãe – o pai não era uma figura muito presente fisicamente durante sua infância e adolescência, apesar de sempre estarem em contato.

– Minha mãe era meu exemplo diário. Apesar de sofrer de depressão durante muito tempo, ela tentava se manter sempre ativa e me transmitir os melhores ensinamentos e exemplos – lembra ela, que perdeu a mãe em 2013.

Mas, ao mesmo tempo em que tinha ali um exemplo de mulher guerreira, que lutava pela sua sanidade mental e física, Barbara também vivia numa família que se enquadrava no modelo clássico patriarcal que “infelizmente domina nossa sociedade até hoje”, com o pai sendo o provedor.

– Então, depois de muitos anos presenciando brigas, vendo e sentindo como a minha mãe estava imersa e presa naquela relação de dependência, muitas vezes sem saber como se libertar, eu tatuei dentro de mim a certeza de que não queria aquilo para minha vida. Acho que foi a partir daí que comecei a questionar o meu lugar no mundo.

Sua personalidade forte fazia com que não levasse desaforo para casa. Era uma menina que gostava de bater de frente, que não gostava que mandassem nela.

– Minha mãe me ajudou muito a construir meu espírito de liderança, não somente em grupos, mas na liderança de mim mesma. Como trabalhar essa inquietude, meus instintos e ímpetos? Canalizando a energia para o lugar certo, focando no que realmente me toca e me move – lembra.

Dado momento da entrevista, questiono “quem é a Barbara?”, e ela logo se lembra que esta era uma pergunta que sua mãe sempre fazia.

– Não era a relação mais fácil do mundo, não. Para falar a verdade, a gente se descabelava muito! Imagina só, mãe leonina e filha geminiana… Ufa! Mas, dentro do que a gente estava construindo, cada uma se fortalecia e crescia com a ajuda da outra. Não consigo imaginar melhor exemplo de força, de inspiração, que não seja a minha mãe. Ela não era perfeita, não se enquadrava em nenhum padrão, aprendi muito com os erros dela e toda essa troca fez de mim a mulher que sou hoje.

Dois mil e quinze foi um divisor de águas na vida de Barbara, quando posou para o projeto #365nus, do fotógrafo Fernando Schlapfer.

– Esse foi um dos momentos mais especiais e potentes que a Barbara Mulher viveu nos últimos tempos. Para a maioria, pode parecer apenas mais um ensaio fotográfico, mas para mim transcendeu todas as expectativas. Eu estava num processo de luto pós-morte da minha mãe, tinha acabado de sair de um relacionamento extremamente abusivo e estava lutando contra a depressão, quando surgiu o convite para participar do projeto.

Para Barbara, é uma pena que falar sobre depressão ainda seja tabu. Ela fala sobre o problema tranquilamente, afinal “somos seres humanos e esse tipo de coisa não dá em árvore, caramba!“. No entanto, passou por um processo intenso de desconstrução, autoconhecimento e autoaceitação até chegar aqui.

– Sempre fui uma menina muito comunicativa, gostava sempre de estar em espaços públicos e nunca tive dificuldade de socializar. Quando comecei a ter crises de pânico, que vieram como consequência da depressão, fiquei meses em reclusão total dentro de casa, não conseguia sair da cama, emagreci cerca de 13 quilos e o medo era minha principal companhia. Foi uma luta árdua, busquei muitas formas de tratamento e graças as deusas comecei a me reerguer. Hoje eu aprendi a lidar com a ansiedade e com o pânico, mas eles ainda fazem parte de mim e sabe o que? Eu me fortaleço com isso tudo. Quando ultrapasso um momento de crise, me sinto mais forte, mais poderosa, me sinto capaz! E é isso, somos capazes de enfrentarmos nossos fantasmas, não podemos esquecer disso nunca, mesmo quando está difícil de enxergar.

Ela conta que o ensaio a permitiu ter uma sensação de liberdade, de se sentir realmente dona do seu próprio corpo e das próprias vontades a encheu de vida e força. Ali, não havia motivos para se reprimir ou esconder.

– Naquele momento, eu podia ser mulher e não ter medo. Foi um momento de imersão dentro de mim mesma, de reconciliação com o meu eu mulher: não tinha que pedir permissão para ninguém, não existia medo do namorado não gostar, não existia o bloqueio sufocante da depressão. Consegui me livrar dessas correntes, desses estereótipos, dos medos e voltar a me sentir a mulher que eu sempre busquei ser: independente, potente e destemida. A partir daí acredito que comecei um novo capítulo na minha vida.

Neste novo capítulo, surgiu o movimento Não é Não. Uma amiga havia sofrido assédio e, ao conversar com outras amigas, todas perceberam que algo deveria ser feito.

– Precisávamos nos proteger e nos identificar no meio dessa loucura que é ser mulher e estar em espaços públicos, sendo desrespeitadas e assediadas.

Então, 40 mulheres se juntaram e financiaram a produção de 4 mil tatuagens que foram distribuídas gratuitamente no carnaval de rua do Rio de Janeiro em 2017. Com sucesso de adesão, o grupo viu uma oportunidade de fazer crescer a iniciativa. Foi lançada uma campanha de financiamento coletivo, em que arrecadaram R$ 20.457,00. Com o valor, produziram 27 mil tatuagens, distribuídas gratuitamente no carnaval de 2018, em sete cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Recife, Olinda e Brasília.

– Hoje somos 6 mulheres à frente do coletivo Não é Não e seguimos fazendo ações e buscando cada vez mais espaços para gerar discussão, proteção e identificação entre as mulheres. Recentemente fizemos uma ação com o time de futebol Corinthians, que foi um golaço pra gente. Estar presente em ambientes que são por natureza machistas, conscientizando e reivindicando por direitos igualitários, por respeito às mulheres, é de uma potência imensurável. Na terça feira, dia 12, participamos de uma conversa com os alunos do ensino médio do Colégio Estadual Paulo Assis Ribeiro, em Niterói.

Para Barbara, estamos no caminho certo quando falamos em direitos das mulheres. Ela acredita que, quando as mulheres se unem, a força gerada nesse encontro pode mover montanhas.

– Semana passada estávamos nas ruas no Dia Internacional da Mulher potencializando nossas vozes. O dia 8 de março não é uma data para ganhar flores, mas sim para lembrar e organizar as lutas pelos direitos da mulher. Estereótipos de gênero é o que as mulheres recebem nessa data. Ao invés de ser celebrado como um dia dedicado à reivindicação dos nossos direitos, somos sufocadas com flores e aquele conhecido discurso de que o que temos de melhor a oferecer é beleza, sensibilidade e delicadeza: qualidades que não têm serventia alguma na luta contra a desigualdade de gênero. Estamos nas ruas lutando para modificar esse padrão.

O trabalho que realiza no coletivo dá forças para continuar e acreditar na nossa luta, que não é fácil, “mas enquanto estivermos ativas, ainda estaremos no jogo”.

– Hoje em dia um dos assuntos mais falados nas mídias, que está na boca do povo, é o feminismo, a violência contra a mulher e toda essa movimentação e visibilidade que estamos alcançando é revolucionária. A caminhada é longa e árdua, mas não podemos nos entregar. Acredito que nós somos a resistência!

 

* Quem tiver interesse em chamar as meninas do Não é Não para participar de algum evento ou fazer parceria pode entrar em contato via e-mail (tatuagensnaoenao@gmail.com). Para saber mais, elas estão no Facebook e Instagram também.

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

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