SÉRIE MULHERES: DIVA GUIMARÃES

Foram nos mais de 40 minutos em uma ligação interurbana do Rio para Curitiba que pude ouvir a história de Dona Diva – e digo: ficaria horas pendurada ao telefone só ouvindo o que mais ela tem a dizer. A senhora de 78 anos emocionou muita gente durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty/RJ) do ano passado, durante a mesa A Pele Que Habito, com Lázaro Ramos, ao contar sua história. E é esta história, com mais detalhes, que trago aqui hoje, para encerrar com chave de ouro a nossa série de sucesso Mulheres.

– Meu nome é Diva Guimarães, sou filha de Pedro Manoel Guimarães e de Rita de Oliveira Guimarães. Sou de uma família de 13 filhos. Nasci em Serra Morena, no Paraná, e meus pais são filhos de escravos.

É assim que ela se apresenta. A família morava num local “quase sem condição de sobrevivência”, no mato, na beira do rio. Diva conta que, naquela época, muita gente morria por picada de inseto. A sua vida foi bastante feliz… até os cinco anos de idade.

– Tive uma mãe espetacular mas, depois dos 5, fui para um internato e minha vida não foi nada maravilhosa. Minha irmã de 12 anos também foi, mas não ficamos na mesma escola, não sei porquê. Minha mãe nos mandou para o internato porque queria que os filhos estudassem e era essa a oportunidade. A gente foi para estudar e eu fui alfabetizada, é claro, mas também trabalhei e apanhei muito – conta, com a voz embargada.

Dona Diva explica que isso acontecia [trabalhar e apanhar] com muitas crianças que eram não pagantes, que haviam sido colocadas ali por freiras.

– Claro que não tenho nada contra a freira que me alfabetizou, mas tinham algumas irmãs, especialmente uma, que eram o terror dos terrores. Você apanhava e não sabia o porquê. Por causa disso eu amadureci cedo, porque ali era um colégio religioso, onde diziam que todos ali eram iguais diante de Deus, e se tem uma coisa que eu aprendi desde cedo é que éramos desiguais. Os que pagavam não apanhavam. E nós, que éramos alunos assistidos, apanhávamos.

Ela conta que tinha uma amiga de “fazer arte” chamada Teresa Lopes, e que as duas aprontavam juntas no colégio já que “iam apanhar de qualquer maneira”.

– A gente começou a escolher o dia que ia ficar de castigo, que era ou no dormitório ou na horta. Eu gostava da horta porque eu comia muita couve, tomate, cenoura, rabanete, e cumpria o que era determinado para fazer. No dormitório, as meninas que eram internas saíam aos fins de semana para casa e voltavam cheias de doces, que entregavam um pouco para as freiras e escondiam nos travesseiros o restante. Eu e a minha amiga descobrimos sem querer este esconderijo, porque as freiras jogavam todos os cobertores no chão e a gente tinha que dobrar. Um dia, afofando o travesseiro, descobri… E comi muito Diamante Negro, Sonho de Valsa e uma goiabada que vinha embrulhada em papel celofane. Não sou muito fã de chocolate hoje porque já comi muito.

Segundo Dona Diva, o apelido “mais carinhoso” pelo qual a chamavam era negrinha fedida e as ameaças eram uma constante no internato. Ela tinha alergia a insetos, que formavam machucados. Certo dia, levou uma surra tão grande de uma freira que a roupa grudou nas feridas.

– Foi um dia de manhã e eu nem sei porquê apanhei. Ela me colocou numa bacia meio alta, de granito, e começou a me lavar. A bacia começou a ficar manchada de sangue. Minha tia era cozinheira, trabalhava perto dali, não sei se era na casa do bispo, mas tinha entrada livre na escola. Ela viu essa situação e foi quando eu pude voltar para casa – lembra.

Quando voltou, seus pais haviam se mudado para a cidade de Cornélio Procópio, onde já tinha escola. A situação ali também não foi fácil. Dona Diva conta que esta era uma cidade de gente muito rica, de fazendeiros.

– E eu pobre, né? Minha mãe era lavadeira e eu costumava entregar roupa. E eu acabava entregando as trouxas na casa de pessoas que estudavam comigo. Na minha época, fui a única aluna negra no primário e no ginásio, então sofri muita discriminação, tanto dos alunos quanto dos professores. Não todos, mas a maioria, inclusive a diretora.

Certo dia, quando tinha 11 anos, brigou com um colega de sala porque ele ficava a cutucando com a régua e a chamando de nega fedida.

– Eu era briguenta. Sempre tive muita força apesar de ser magra. Fui para cima dele e a professora me levou ao gabinete da direção. Ela perguntou o que houve e eu contei a história. Ela disse: “mas você é uma nega fedida mesmo”, me deu dois tapas e eu avancei nela.

Ao chegar em casa e explicar o que havia acontecido, a mãe de Diva a levou em um posto de saúde e pediu um atestado. Chegando de volta na escola, entregou o atestado que mostrava que a filha estava saudável e pediu para a diretora confirmar a história e perguntou: “se eu lavo a roupa dos outros, você acha que eu vou deixar meus filhos sujos?”.

Seu pai era ferroviário e morreu cedo, deixando Rita e os filhos. Diva fala com orgulho da mãe:

– Minha mãe era uma pessoa fortíssima, que não tenho como definir. Era uma pessoa iluminada, fora da época, muito esclarecida. Tinha um conhecimento profundo, lia de tudo tendo tido apenas três meses de alfabetização. Discutia sobre qualquer coisa, da bíblia à política, assunto que gostava muito. A gente teve essa mãe forte que nunca deixou a gente desistir e isso foi o principal. Se você tem base em casa, você até sofre, mas nas dificuldades ela se mostrava como exemplo.

O exemplo surgiu, por exemplo, quando Diva pensou em desistir de estudar. Apesar de admirar a mãe, conta que não queria ser igual a ela no sentido da vida que levava, o dia inteiro com a barriga molhada de tanto lavar roupa. Foi quando o esporte surgiu na sua vida. Ainda no ginásio, Diva começou a praticar.

– Quando eu ia jogar em outra cidade, me chamavam de nega fedida e pau de fumo. Eu tinha que ser forte e o esporte me ajudou. Eu pensava que se vão ficar gritando tudo isso para mim, vou mostrar que sou a melhor. Então, treinava muito e, sem modéstia, fui boa mesmo – conta, ressaltando que o esporte a ajudou a ter disciplina e superar os obstáculos.

Dona Diva trabalhou como professora de alfabetização e, depois, formou-se na faculdade de Educação Física.

– Eu passei no vestibular para História também, mas optei pela Educação Física porque já era atleta. Todos nós temos potencial, o que falta são oportunidades. Uns têm mais melanina e outros têm menos. A gente não pode desistir. Se hoje só tenho um pedaço de pão para comer, de repente encontro uma pessoa no meio do caminho que divide um lanche comigo.

Ela lamenta que o país ainda viva numa “época de colônia”, com a mentalidade de que só quem tem dinheiro pode crescer na vida, pois quanto mais se coloca essa ideia na cabeça de uma criança, mais ela vai crescer sem achar que tem capacidade de vencer.

No quarto ano primário, teve uma nova professora, a Raquel, que a tratava de forma completamente diferente. Ela pedia à Diva que, por favor, apagasse o quadro e a ajudasse a carregar seus livros. Foi quando Diva se tornou a primeira aluna da sala.

– Além da base em casa, você precisa de uma escola de qualidade, com um professor que entenda seu comportamento e faça você se sentir acolhido. Não é tão fácil assim. A escola é uma grande instituição de racismo e exclusão, infelizmente eu, como professora, tenho que falar isso. E não é porque alguém me contou. Eu vivi isso enquanto aluna e enquanto professora.

E atribui à leitura a base intelectual que tem hoje.

– Eu não sou presa só a Machado de Assis ou a Fernando Pessoa. Leio de tudo, do céu ao inferno, porque preciso saber da real história, de forma a não acreditar nessa coisa que os poderosos que se supõem superiores querem colocar.

Para ela, a questão do racismo não mudou em nada. E acredita que a saída está na leitura, para que as mulheres negras saibam dos seus direitos.

– Por exemplo, a festa do Carnaval. Eu não frequento, mas não sou contra e admiro a festa e o povo. Mas a mulher negra é vista como objeto sexual. A propaganda que é feita sobre o Carnaval é feita para desorientar. Diz que você tem que usar camisinha, mas não explicam direito pra quê. As pessoas que vêm, vêm achando que vão ter uma orgia e não uma festa para aproveitar. O que eu aconselho a todos, mas especialmente às meninas negras e brancas pobres, de periferia, é que elas tenham mais respeito por elas mesmas. Que leiam muito, estudem, não se deixem ser consideradas objetos de uso, para que, assim, tenham uma vida melhor. Se não, vai ser muito difícil. A base da educação vem de casa, a escola é um complemento. A gente precisa estar unido, brancos e negros, para que consigamos uma transformação. Sozinhos não chegamos a lugar algum.

Quando questiono sobre o feminismo, Dona Diva titubeia: “Olha, eu não sei dizer muito bem se sou feminista”, e faz um discurso empoderador.

– Sempre segui a linha justiceira. Eu acho que a gente é desrespeitada como mulher, como profissional, especialmente se você for negra. Como morei em cidadezinhas, lá achavam que por ser negra, você tinha que dormir com os homens, ficar à disposição em todos os sentidos. A gente tem que ser respeitada, porque a gente tem a mesma capacidade, em qualquer setor que quiser trabalhar e se dedicar. Eu sou contra a desigualdade no trabalho, contra a maneira que tratam a mulher quando acontece alguma violência, estupro. Falam que a culpa é da roupa! A gente tem o direito de andar como quiser, vestir o que quiser. Eles andam com sungas a calças apertadas e nenhuma mulher vai agredi-los. Por que nós temos que ser desrespeitadas? Esse tipo de coisa que eu não aceito. A despesa da casa tem que ser dividida igualmente, se os dois trabalham fora, então vão dividir, afinal, são duas pessoas vivendo ali. No Dia das Mulheres, eu desejo que nos respeitem todos os dias enquanto ser e enquanto capacidade.

 

 

Em busca do nome do autor da foto

Anúncios

Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s