EXPLICANDO O AUTISMO

No dia 2 de abril comemora-se o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, estabelecido pela Organização das Nações Unidas em 2007. De acordo com o manual de classificação de transtornos mentais datado de 2013, o autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizado por sintomas específicos como a dificuldade de comunicação e interação social e comportamentos rígidos, repetitivos e estereotipados.

A psicóloga Hellen Guedes, especialista em terapia cognitivo-comportamental e neurociências, professora da pós-graduação de Educação Inclusiva da Universidade Castelo Branco e psicóloga do Espaço Neuroevoluir, explica qual o desafio no diagnóstico de autismo.

– O autismo é um espectro muito amplo. Se aprimoraram as técnicas para a avaliação diagnóstica do autismo, então os casos mais leves, que antigamente não se davam importância, já estão sendo diagnosticados. Dentro deste espectro têm crianças com autismo severo, que são não-verbais e têm comportamento agressivo, se automutilam; têm crianças que são moderadas, que falam poucas palavras, que têm algum controle no seu comportamento; e têm as crianças com autismo leve, que se tornam adultos que vão para a faculdade e conseguem ter uma autonomia, uma independência maior na vida.

Até 2013, a síndrome de Asperger não fazia parte do espectro autista, diferente de hoje. Os sintomas bases são praticamente os mesmos, o que muda é o grau de intensidade desses sintomas, sendo mais leves do que o que se classificava, anteriormente, como autismo.

De acordo com a psicóloga, o diagnóstico precoce do autismo é fundamental para a estimulação precoce desta criança, porque as chances de obter transformações na estrutura cerebral de um bebê são muito mais rápidas do que em um adulto.

– Até os dois anos de idade, o desenvolvimento cerebral como um todo está em plena formação, com novos neurônios surgindo. A gente pode obter ganhos na estimulação ao longo de todo o desenvolvimento humano, só que com bebezinhos a gente obtém resultados mais rápidos. Até os quatro anos, ainda conseguimos um bom resultado. Até os dezoito já reduz um pouquinho a capacidade de resultados rápidos com a estimulação, e depois disso fica mais linear o desenvolvimento. Então, a importância desse diagnóstico precoce tem a ver com essa capacidade da neuroplasticidade cerebral. Quanto antes esta criança entrar em estimulação, mais rápido a gente consegue modificar esses sintomas.

Para Jane Carvalho, nutricionista clínica, a alimentação também é um fator que auxilia no desenvolvimento dos autistas e frisa três aspectos marcantes no que tange à alimentação dessas crianças. São elas: a seletividade, quando os autistas selecionam os alimentos e não se adaptam à variedade, o que pode levar a carências nutricionais; a recusa, quando, ainda que selecionando os alimentos, há a não aceitação dos alimentos escolhidos, podendo levar a um quadro de desnutrição; e a indisciplina, que pode contribuir para a inadequação alimentar.

– Algumas crianças e adolescentes com autismo podem necessitar de dietas especiais e o planejamento deve ser individualizado, acompanhando cada caso e característica daquela pessoa. A ciência da nutrição comprova a eficácia de que bons hábitos alimentares favorecem o desenvolvimento cerebral, equilibrando as funções neurológicas. Determinados nutrientes agem diretamente no problema, melhorando a qualidade de vida – explica.

Além disso, Jane ressalta que a alimentação equilibrada contribui para a interação do paciente com família e amigos, além de melhorar o foco, a concentração e a atenção.

– Dentre os nutrientes mais relevantes no tratamento alimentar do autista destacam-se as vitaminas do complexo B, a N-Acetilcisteína [NAC], a coenzima Q10, a vitamina D, o selênio, cálcio, zinco e magnésio, além do ômega 3. Alguns alimentos podem ser restringidos nesse perfil de paciente, a fim de prevenir a disbiose, ou seja, o desequilíbrio das bactérias intestinais que causam aumento de gases, distensão abdominal, cólicas etc, como proteínas do glúten como o trigo, centeio e cevada. Esses alimentos agem diretamente no comportamento porque afetam o sistema de neurotransmissores, podendo piorar quadros de hiperatividade presentes em pacientes autistas.

Para a nutricionista, é importante que a alimentação da criança autista seja lúdica, incluindo na alimentação brincadeiras que envolvam a participação dos pacientes de forma mais ativa e livre.

– Assim, é possível criar um ambiente mais íntimo com os alimentos. É importante deixar a criança brincar com a comida, se sujar. Normalmente, um alimento novo tem de ser apresentado no mínimo dez vezes para que uma criança se familiarize com ele. Já em crianças com autismo serão necessárias mais exposições que isso. Outra dica é permitir que elas se envolvam na rotina da alimentação. Pode-se começar escolhendo fotos de comida em uma revista ou brincar com alimentos de plástico. Dependendo da idade, ela pode ajudar no preparo de algumas refeições simples. Esse ato vai permitir que a criança se acostume com o cheiro, cor, textura e até o gosto dos alimentos.

Hellen ressalta que a terapia da criança com autismo deve ser multidisciplinar, aliando psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.

– A psicologia tem papel fundamental no trabalho com essa criança. O psicólogo pode seguir protocolos clínicos já prontos para trabalhar o autismo, como o ABA, o TEACCH, o Floortime, mas na minha prática clínica sou mais flexível. Uma vertente com a qual atuo bastante é a análise comportamental, que ajuda a criança e a própria família a lidar com os sintomas e entender que, muitas vezes, um comportamento não é uma birra, é uma questão sensorial e que é muito comum no autismo, como a dificuldade com sons, cheiros, texturas e que podem despertar uma crise.

A psicóloga explica que, além da análise comportamental nos ambientes escolar, familiar e terapêutico, outra linha de ação da psicologia é a estimulação das representações simbólicas, como o faz de conta e o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento de habilidades sociais.

– Neste caso [desenvolvimento de habilidades sociais], a gente trabalha um reconhecimento das emoções, porque o autista tem dificuldade com a teoria da mente, habilidade que a gente desenvolve por volta dos quatro anos de idade, que é a interpretação da emoção do outro, ou seja, a base do desenvolvimento da empatia. A gente trabalha dentro de um grupo de desenvolvimento de habilidades sociais fazendo jogos, discussões de temas da atualidade e trabalha também com a perspectiva de inclusão e a neurodiversidade, um tema bastante discutido até entre as crianças e adolescentes a partir dos 12 anos, que envolve a aceitação delas na condição de autista.

Hellen afirma que o grande objetivo da psicologia é desenvolver a regulação emocional da criança autista para que ela esteja bem para a realização das suas atividades no dia a dia, conseguindo participar das atividades sociais, e diminuindo as resistências de idas a ambientes de festa e de escola.

Sobre a inclusão de crianças e adolescentes autistas na escola regular, Hellen diz que este é um assunto polêmico e delicado, devido à forma como as escolas não estão preparadas para essa inclusão, muitas vezes.

– O que acontece é que a gente tem algo que é da teoria e tem algo que é da prática. Nós temos hoje uma lei que respalda e obriga a inclusão da criança autista, apesar de algumas escolas alegarem que não existe lei. Só para você ter uma noção de quanto isso é difícil, já aconteceu de eu entrar numa escola e ver que tem uma cadeira com amarras, que é ali onde aquela criança fica. Semana passada, fui numa escola particular grande que falou que de forma alguma entraria mediador ali, porque eles têm uma auxiliar que circula entre as salas e é essa pessoa que dá suporte a todas as crianças com deficiência da escola! São estas barreiras que eu encontro na realidade das escolas. Tenho também uma menina, em processo de alfabetização, que está em uma turma do 5º ano com 35 alunos e uma professora sozinha, com uma estagiária que não tem capacitação para lidar com autismo. A adolescente que eu tenho nessa sala tem perfil de autismo moderado e é muito complicado para ela estar nessa sala com muitos adolescentes, muito barulho e sem materiais adaptados. É muito difícil, mas essa é a realidade. Não dá para dizer que eu quero que todas as minhas crianças estejam no ambiente escolar regular, eu tenho que analisar caso a caso, avaliar junto com a família e com as escolas possíveis para aquela família.

Diante de tantas dificuldades enfrentadas nas idas às escolas, surgiu o projeto PEI (Plano de Ensino Individualizado), curso criado por uma psicopedagoga do espaço Neuroevoluir, que tem como objetivo orientar os familiares e as escolas a pensar o processo de aprendizagem de cada criança, facilitando o processo de inclusão e dando estratégias de como construir esse plano escolar com metas, de acordo com o perfil de desenvolvimento de cada criança. O projeto se volta para as crianças que não acompanham o currículo da turma e, portanto, precisam de um ensino individualizado.

– Para muitas crianças, a saída para uma escola regular se torna um transtorno e pode levar a situações de fracasso escolar, crises de ansiedade e de pânico. É aí que a gente vê o quanto o ambiente escolar pode ser um ambiente que causa sofrimento para a criança autista. Por isso, pensar no caso a caso é tão importante, tem que ter muita sensibilidade.

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Escrito por

Jornalista por profissão, vocação e paixão. ♡

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